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Agro corta área de algodão e revê safra 2026/27 diante de risco climático e custos
Empresa agrícola ajusta estratégia para safra 2026/27 em resposta a fatores climáticos; contexto setorial com impacto potencial em exportações de commodities.
A BrasilAgro redefiniu o planejamento agrícola para a safra 2026/27, com redução da área de algodão e mudanças no mix de culturas diante da previsão de um El Niño forte a muito forte. A estratégia foi detalhada pelo CEO André Guillaumon ao comentar os resultados do exercício encerrado em junho de 2026, segundo o Exame.
A área total cultivada foi mantida em 165,2 mil hectares, mas a distribuição entre as culturas foi alterada. A empresa reduziu em 70% a área de algodão de primeira safra e concentrou o cultivo em áreas irrigadas, onde a volatilidade produtiva é menor. Ao mesmo tempo, a área de algodão de segunda safra cresceu 36%, também com foco em áreas irrigadas.
A soja recuou 5%, o feijão safrinha foi retirado do planejamento, o milho de primeira safra aumentou 22% e as pastagens cresceram 21%.
Guillaumon explicou ao Exame que parte da estratégia foi deixar de cultivar áreas novas ou consideradas de maior risco produtivo, mais sensíveis a eventos climáticos.
No caso do algodão, a decisão também envolveu uma comparação entre retorno e capital investido. “A gente está falando de uma cultura de R$ 14 mil, R$ 15 mil por hectare. Quando você olha uma margem EBITDA da soja e compara com o algodão naquele momento, não fazia sentido correr esse risco”, afirmou.
O custo de capital também pesou na decisão. Com a Selic a 14% ao ano, o elevado investimento por hectare exigido pelo algodão aumenta o custo financeiro da cultura e torna a comparação com a soja menos favorável, especialmente para o algodão de sequeiro em um cenário de El Niño, segundo o Exame.
Os resultados do ciclo encerrado em junho de 2026 ajudam a explicar a revisão da estratégia. A receita líquida operacional da BrasilAgro chegou a R$ 891,7 milhões, alta de 2% em relação ao ano anterior, enquanto o EBITDA Ajustado Operacional somou R$ 97,3 milhões, crescimento de 11%, favorecido pelos resultados de soja, milho e operações de hedge, segundo o Exame.
Apesar disso, a companhia encerrou o exercício com prejuízo líquido de R$ 90 milhões, após registrar lucro de R$ 138 milhões no ano anterior. Segundo o Exame, o resultado foi pressionado principalmente pela menor contribuição das vendas de fazendas, que haviam gerado ganho de R$ 180,1 milhões no ciclo anterior, além do desempenho da cana-de-açúcar.
No algodão, a receita com pluma chegou a R$ 82,2 milhões, alta de 3% na comparação anual, mas a margem bruta da cultura ficou negativa em 23%, ante resultado positivo de 20% em 2025, pressionada pela queda dos preços e pelo aumento do custo unitário.
A soja encerrou o período com margem bruta de 20%, enquanto o milho atingiu 21%.
El Niño aumenta risco climático para a safra 2026/27
O Cemaden informou, em junho de 2026, a configuração do El Niño e apontou probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027.
Os modelos também indicavam elevada possibilidade de um episódio muito forte entre a primavera e o verão de 2026, com anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial superiores a 2,0°C.
Para o trimestre de julho a setembro de 2026, o Cemaden projetou chuvas acima da média na Região Sul e abaixo da média no centro-norte do país.
Nesse cenário, a colheita do milho segunda safra, do algodão e da cana-de-açúcar no Centro-Oeste, além das culturas de inverno no Sul, poderia ser favorecida em algumas regiões, enquanto temperaturas mais elevadas poderiam afetar pastagens e a preparação da safra seguinte no Centro-Oeste.
Setor enfrenta custos elevados e pressão financeira
O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária, Guilherme Campos, afirmou, em declaração reproduzida pelo site da BrasilAgro, que o produtor rural enfrenta uma combinação de endividamento, queda das margens, aumento de custos e juros elevados.
Segundo ele, o principal risco associado ao El Niño está na produtividade e na qualidade das lavouras, e não necessariamente na redução da área plantada, já que produtores podem economizar em fertilizantes e outros insumos para reduzir a exposição financeira.
O governo federal passou a acompanhar com maior atenção os possíveis efeitos do fenômeno sobre o setor agropecuário, com foco em medidas preventivas e no monitoramento dos preços dos alimentos, segundo o Canal Rural.
O orçamento do seguro rural, entretanto, sofreu contingenciamento superior a 53%, e os recursos destinados à subvenção ao prêmio ficaram em R$ 473,8 milhões. De acordo com Guilherme Campos, a discussão sobre o seguro foi retirada do lançamento do Plano Safra para integrar uma análise interministerial mais abrangente sobre os efeitos do El Niño.
FUP Explica
A decisão da BrasilAgro é um termômetro do que produtores de grande escala estão calculando para a safra 2026/27: com El Niño confirmado e Selic em patamar elevado, o custo de errar numa cultura intensiva em capital, como o algodão de sequeiro, ficou alto demais. A empresa tem estrutura para irrigar e redistribuir risco entre culturas; produtores menores, sem essa flexibilidade, tendem a enfrentar a mesma equação com menos saídas.
O ponto mais delicado, levantado pelo próprio secretário de Política Agrícola, é o risco de subinvestimento em insumos. Se o produtor endividado optar por economizar em fertilizantes para reduzir exposição financeira, a queda de produtividade pode ser maior do que a variação climática em si. Isso pressiona margens, pode afetar a oferta de commodities e, dependendo da escala, repercute nos preços ao consumidor. O contingenciamento de mais de 53% no orçamento do seguro rural agrava esse quadro: justamente quando o risco climático aumenta, o principal instrumento de proteção ao produtor foi esvaziado.
No plano político, a decisão de separar a discussão do seguro rural do Plano Safra para uma análise interministerial pode indicar que o governo ainda não tem resposta definida para o problema. Isso gera incerteza para quem precisa planejar o plantio agora, e o calendário agrícola não espera deliberação política.




