
Argentina acelera mineração de lítio após exportações crescerem 42%
Expansão da mineração de lítio argentino como estratégia econômica. Relevante para comex regional (Mercosul), mas sem urgência regulatória ou operacional imediata.
A Argentina acelera a expansão da mineração de lítio nos Andes como uma das principais apostas do governo Javier Milei para gerar divisas em meio a um quadro econômico deteriorado. As exportações do setor mineral cresceram 30% em 2025, com as vendas de lítio avançando 42% isoladamente no período.
O contexto macroeconômico que empurra essa aposta é adverso. A Agência Brasil reportou, em maio de 2026, que a inflação mensal argentina, que havia recuado para cerca de 2% ao longo de 2025, voltou a subir e chegou a 3,4% em março de 2026. No mesmo período, a atividade econômica registrou retração de 2,6% em fevereiro de 2026 em relação a janeiro, com queda acumulada de 2,1% nos últimos 12 meses. A produção industrial caiu 4% em fevereiro de 2026, acumulando baixa de 6,1% em 12 meses, segundo a mesma fonte.
As reservas argentinas de lítio estão concentradas na Cordilheira dos Andes, sobretudo em salares no norte do país. Os principais projetos em operação ficam no Salar del Hombre Muerto, em Catamarca, e no Salar de Olaroz, em Jujuy. Aproximadamente 50 iniciativas estão em diferentes estágios de desenvolvimento no país, segundo a mesma fonte.
A KPMG projeta que a Argentina poderia exportar lítio por valor próximo a US$ 4 bilhões anuais em 2026, com produção aproximando-se de 800 mil toneladas por ano de carbonato de lítio equivalente (LCE). O mineral é insumo central para baterias de íon-lítio usadas em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
Análises da Deloitte e do BTG, citadas pelo InvestNews em maio de 2026, estimam que as exportações minerais argentinas podem passar de US$ 6 bilhões em 2025 para mais de US$ 30 bilhões em 2035. Metais e mineração respondem hoje por 9% das exportações do país, atrás apenas de soja, óleo e gás, cereais e automóveis.
A Argentina integra o chamado cinturão do cobre andino, uma das formações geológicas mais ricas do planeta em depósitos de metais, compartilhando com o Chile a mesma vantagem geológica que tornou o país vizinho o maior produtor mundial de cobre. A diferença de escala, porém, é expressiva: enquanto a mineração representa menos de 1% do PIB argentino hoje, no Chile o setor responde por 10% da economia.
Além do lítio, a Argentina aposta no cobre como vetor de diversificação de longo prazo. O InvestNews aponta que metais preciosos dominam a pauta exportadora do setor mineral argentino com 83% do total, mas a tendência é de diversificação acelerada. O cobre é insumo indispensável em cabos, motores elétricos, painéis solares, turbinas eólicas e data centers, por conduzir eletricidade melhor que qualquer outro material acessível.
Preocupações socioambientais
A expansão da mineração de lítio levanta preocupações com impactos sobre comunidades e meio ambiente. A Agência Brasil registrou, em outubro de 2025, que a exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, afeta comunidades rurais com poeira, barulho contínuo, destruição de mata e acúmulo de rejeitos que assoreiam córregos. A intensificação dos projetos naquela região começou após 2023, coincidindo com o início das exportações brasileiras do mineral. O relato é sobre o Brasil, mas o dossiê aponta que desafios similares tendem a emergir na expansão argentina.
FUP Explica
A aposta argentina no lítio é, antes de tudo, uma resposta de curto prazo a uma crise econômica que não dá sinais claros de reversão. Com a indústria em queda e a inflação voltando a subir, o governo Milei precisa de divisas, e o setor mineral é um dos poucos com capacidade de gerar receita em escala relevante nos próximos anos. O problema é que mineração tem ciclo longo: projetos demoram anos para sair do papel, e a maioria das 50 iniciativas listadas ainda está em fase de desenvolvimento, o que significa que o grosso da receita projetada para 2035 depende de estabilidade regulatória e macroeconômica que a Argentina ainda não demonstrou conseguir sustentar.
No plano regional, a expansão argentina reforça uma tendência já visível no Peru, que registrou crescimento expressivo nas exportações mineiras no primeiro semestre de 2026. A América do Sul consolida sua posição como fornecedora central de minerais para a transição energética mundial, mas os países da região estão adotando estratégias distintas: enquanto o Brasil anunciou que não exportará minerais críticos sem industrialização local, a Argentina segue apostando no volume de exportação de matéria-prima. Essa divergência pode criar assimetrias competitivas dentro do Mercosul e influenciar como cada país se posiciona em acordos comerciais futuros que envolvam minerais críticos.
A dimensão socioambiental é o ponto de maior risco político interno para o governo argentino. A experiência brasileira no Vale do Jequitinhonha mostra que a aceleração da extração sem estrutura de governança local tende a gerar conflitos com comunidades, o que pode travar licenciamentos e criar instabilidade jurídica para os projetos, justamente o tipo de incerteza que afasta investidor de longo prazo.



