Restrição também alcança aves vivas e ovos férteis; país já havia interrompido compras de produtos avícolas do Brasil em 2025 por causa da gripe aviária
O México suspendeu, nesta segunda-feira (19), a importação de carne de frango e de outros produtos avícolas do Brasil após a identificação de um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial de perus no Sul do país. Anunciada pela Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural mexicana, a medida busca proteger a produção local e atinge o comércio com o maior exportador mundial de carne de frango, que tem o mercado mexicano entre seus principais destinos.
Além da carne, a restrição inclui aves vivas e ovos férteis, conforme informou a DW, com base no comunicado da pasta mexicana. Ao justificar a decisão, a autoridade afirmou que o México é livre da doença de Newcastle e que a suspensão foi adotada para preservar essa condição sanitária. A interrupção ocorre após as autoridades brasileiras detectarem o foco no domingo (18) e interditarem o estabelecimento afetado.
No Brasil, foram anunciadas medidas de controle e erradicação do foco. Embora a ocorrência tenha sido registrada em uma criação de perus, a decisão mexicana alcança também produtos da cadeia do frango, ampliando os efeitos comerciais do episódio para além da atividade diretamente atingida na propriedade.
A doença de Newcastle é uma infecção altamente contagiosa entre aves. Segundo a Organização Mundial de Saúde Animal, citada na reportagem, pode provocar alterações respiratórias e nervosas, queda na produção de ovos e elevados índices de mortalidade. Para os seres humanos, a enfermidade não representa um risco grave.
A suspensão coloca novamente as condições sanitárias no centro das relações comerciais entre os dois países. O Brasil exporta cerca de 30% de sua produção de frango, segundo os dados oficiais reproduzidos na notícia, e depende do acesso aos mercados compradores para escoar essa parcela da oferta. Nesse contexto, a interrupção das compras por um destino relevante acrescenta uma restrição às vendas externas do setor.
Esta é a segunda vez, em aproximadamente um ano e meio, que o México suspende a entrada de produtos avícolas brasileiros. O episódio anterior ocorreu em maio de 2025, quando a confirmação de um foco de influenza aviária de alta patogenicidade motivou restrições mexicanas e de outros compradores, entre eles China e União Europeia.
Naquele momento, conforme comunicado publicado no portal gob.mx, o Serviço Nacional de Sanidade, Inocuidade e Qualidade Agroalimentar mexicano (Senasica) interrompeu as importações de todo o território brasileiro após receber a notificação sobre a presença do vírus H5N1 em uma granja de Montenegro, no Rio Grande do Sul. A propriedade mantinha cerca de 17 mil aves comerciais de reprodução.
A medida de 2025 abrangia carne de aves, ovos férteis, pintinhos, miúdos e matérias-primas avícolas destinadas à fabricação de alimentos para animais de estimação, entre outros itens. O órgão mexicano informou, na ocasião, que avaliaria uma redução das restrições após receber informações sobre as ações brasileiras de contenção.
Os dois episódios, portanto, envolvem doenças distintas: a suspensão anunciada agora está relacionada à doença de Newcastle, enquanto o comunicado de maio de 2025 tratava da gripe aviária. Os critérios apresentados naquele documento para uma eventual flexibilização se referiam à ocorrência anterior e não estabelecem, por si só, as condições para a retomada das compras interrompidas nesta semana.
FUP Explica
O ponto central aqui é a fragilidade que surtos sanitários criam para as exportações brasileiras de proteína animal. O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango e destina cerca de 30% da produção ao mercado externo, o que significa que qualquer restrição de um comprador relevante tem impacto direto no volume e no preço do produto no mercado doméstico e nas receitas do setor.
O que torna esse episódio mais delicado é o histórico recente: em menos de dois anos, o México suspendeu as compras duas vezes, por doenças diferentes. Isso sinaliza que o país adota uma postura cautelosa e tende a agir de forma ampla, atingindo toda a cadeia avícola brasileira mesmo quando o foco é localizado, como neste caso, em uma granja de perus. Para os exportadores, a incerteza sobre quando e em quais condições as restrições serão levantadas é tão relevante quanto a própria suspensão, porque dificulta o planejamento de contratos e embarques.
No plano diplomático e comercial, o Brasil precisará demonstrar rapidez e transparência nas medidas de contenção para abrir espaço para uma eventual reabertura do mercado mexicano. O precedente de 2025 mostra que o Senasica condicionou a revisão das restrições ao recebimento de informações sobre as ações brasileiras, o que indica que a comunicação oficial entre os dois países será determinante para o ritmo de normalização. Enquanto isso, outros destinos que monitoram a situação sanitária brasileira podem adotar postura semelhante, ampliando o raio de impacto do foco identificado no Sul do país.