Transportadoras passam a formar os próprios carreteiros
Iniciativa do setor para reduzir escassez de motoristas qualificados, afetando disponibilidade e custos de transporte rodoviário de cargas.
O Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná (Setcepar) e a TIC Transportes lançaram um programa estruturado para formar motoristas carreteiros sem experiência prévia na condução de veículos articulados. A iniciativa responde a um déficit estimado de 120 mil motoristas no Brasil e representa uma ruptura com o modelo tradicional de recrutamento, que historicamente exige experiência como pré-requisito para contratação.
Motoristas carreteiros formados do zero
O programa integrou recrutamento, seleção e treinamento em uma única jornada. O processo passou por triagem curricular, entrevistas, avaliação comportamental, capacitação teórica e cinco dias de treinamento prático. Ao todo, a iniciativa recebeu mais de 150 inscrições — um sinal claro de que há demanda reprimida entre profissionais habilitados na categoria E que não conseguem ingressar no mercado por falta de prática operacional.
O critério de seleção também mudou. Em vez de exigir histórico na função, o programa priorizou potencial de desenvolvimento: responsabilidade, disciplina e capacidade de seguir procedimentos de segurança. A formação técnica cobriu direção econômica, condução segura, uso correto do freio motor, respeito aos limites de velocidade e manobras com conjuntos articulados — justamente as competências que mais dificuldades geraram durante o treinamento e que só se desenvolvem com prática supervisionada.
O diferencial do modelo foi o acompanhamento integral do candidato, da seleção até a efetiva contratação pelas empresas participantes. Isso aumenta a taxa de aproveitamento e reduz o tempo de integração do novo profissional.
O círculo vicioso que a iniciativa tenta romper
O problema de fundo é estrutural. O Brasil perdeu cerca de 1,2 milhão de motoristas de caminhão habilitados entre 2015 e 2025 — uma queda de 22% no total de profissionais. A idade média dos motoristas ativos é de 45,3 anos, e menos de 10% têm menos de 30 anos, o que indica baixa renovação geracional da categoria. Com uma parcela relevante dos motoristas ativos acima dos 55 anos e próxima da aposentadoria, a tendência é de agravamento do déficit nos próximos anos.
O gargalo se perpetua porque empresas exigem experiência, mas poucos operadores assumem o custo e o risco de formar novos profissionais. Milhares de motoristas obtêm anualmente a habilitação necessária para operar carretas, mas a ausência de prática continua sendo o principal obstáculo à contratação. A iniciativa paranaense tenta quebrar esse ciclo ao assumir diretamente a responsabilidade pela formação.
Em períodos de pico — safras agrícolas ou datas comerciais de alto volume —, a dificuldade de escalar operações aumenta o risco de ruptura nas cadeias de suprimento de exportadores e importadores. Não por acaso, empresas têm retomado o uso de frotas próprias como resposta ao aumento de custos e à necessidade de maior controle operacional, tendência que pode se intensificar caso o mercado terceirizado continue sem motoristas disponíveis.
A iniciativa do Setcepar não é isolada. O Sest Senat e grandes operadores logísticos também passaram a investir na formação própria de motoristas, sinalizando que o setor começa a tratar o problema como uma responsabilidade coletiva — e não mais como um gargalo a ser resolvido pelo mercado por conta própria.
FUP Explica
O que está em jogo aqui vai além da formação de alguns motoristas no Paraná. O setor está sinalizando que não vai mais esperar o mercado resolver um problema que ele mesmo criou ao exigir experiência de quem nunca teve chance de adquiri-la. Se esse modelo ganhar escala — e há indicações de que outros players já caminham nessa direção —, pode haver um aumento gradual na oferta de motoristas qualificados nos próximos anos.
No curto prazo, porém, o gargalo permanece. Programas como esse levam tempo para produzir volume suficiente de profissionais formados, e o envelhecimento da força de trabalho ativa continua retirando motoristas do mercado em ritmo mais rápido do que a reposição consegue acompanhar. Para quem depende de transporte rodoviário em operações com prazo crítico — embarques com deadline de navio, coletas em recintos alfandegados, distribuição de cargas importadas —, vale monitorar se as transportadoras parceiras estão investindo em formação própria ou ainda dependendo exclusivamente do mercado tradicional de recrutamento. Essa distinção pode fazer diferença real na confiabilidade da cadeia.





