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Shein abre 850 vagas no Brasil enquanto alta dos custos logísticos pressiona lucro
Economia

Imagem: Dick Thomas Johnson

Shein abre 850 vagas no Brasil enquanto alta dos custos logísticos pressiona lucro

29/09/2026·685 palavras

Operação de Guarulhos concentra mais de 800 oportunidades ligadas a armazéns e logística, em meio ao crescimento da América Latina e ao avanço das despesas com entregas

Enquanto os custos para movimentar e entregar pedidos consomem uma parcela cada vez maior de sua receita, a Shein reforça a operação no Brasil, um dos mercados que sustentam seu crescimento fora dos Estados Unidos e da Europa. Entre julho e dezembro de 2026, a varejista prevê contratar 850 profissionais no país, principalmente para seu parque logístico de 220 mil m² em Guarulhos, na Grande São Paulo.

O movimento ocorre em um momento de expansão da América Latina para a companhia, mas também de pressão sobre a rentabilidade, provocada, entre outros fatores, pela alta dos fretes e do combustível de aviação.

Segundo a Transporte Moderno, mais de 800 vagas estão relacionadas a funções de armazém e logística, enquanto outras 50 são destinadas a supervisores, líderes de equipe e demais cargos de liderança. A empresa também recruta profissionais para áreas corporativas, como análise de dados, compras, administração, meio ambiente, saúde e segurança. Desde que instalou sua estrutura corporativa no Brasil, em maio de 2022, a Shein passou de cerca de 30 para aproximadamente mil funcionários diretos nas operações corporativa e logística.

O reforço da estrutura brasileira coincide com uma mudança geográfica no crescimento da varejista. De acordo com o Economic News Brasil, a receita da Shein avançou 0,9% no segundo trimestre de 2026, para US$ 11,08 bilhões, mesmo com quedas em dois de seus principais mercados. Na Europa, o faturamento recuou 13,9%, para US$ 3,77 bilhões, enquanto, nos Estados Unidos, a redução foi de 6%, para cerca de US$ 2,5 bilhões. O desempenho da América Latina ajudou a compensar essas perdas e manteve a receita consolidada em alta.

Ao mesmo tempo, entregar os pedidos ficou mais caro. Conforme apurado pela Exame, as despesas de fulfillment, que envolvem preparação, processamento e entrega das compras, chegaram a US$ 5,59 bilhões no segundo trimestre, alta de 18,1% em relação ao mesmo período de 2025. O valor passou a representar 50,4% da receita da companhia, ante 43,1% um ano antes. Entre os fatores que pressionaram essa conta estão o frete aéreo, a elevação dos preços do combustível de aviação e das tarifas de transporte em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio.

A Shein decidiu absorver parte desse aumento, em vez de transferi-lo imediatamente aos consumidores, mas a escolha pesou sobre a rentabilidade. O lucro líquido ajustado caiu 66,6%, para US$ 228 milhões, enquanto a margem líquida ajustada recuou de 6,2%, no segundo trimestre de 2025, para 2,1% no mesmo período deste ano. Sem o efeito da alta do petróleo e dos fretes, a companhia afirma que a margem teria permanecido próxima ao nível registrado um ano antes.

Nesse cenário, o Brasil ganha espaço não apenas como mercado consumidor, mas também por meio de uma operação mais apoiada em vendedores e estoques locais. Em fevereiro de 2025, o marketplace já representava 60% das vendas da Shein no país, reunia 30 mil vendedores e alcançava mais de 50 milhões de usuários. A empresa projetava elevar para 85%, até o fim de 2026, a participação conjunta do marketplace e dos produtos de estoque próprio comprados de fabricantes brasileiros, embora o balanço mais recente não informe se a meta foi atingida.

A relevância brasileira também aparece nas estimativas de mercado. Embora a Shein não divulgue separadamente sua receita no país, o BTG Pactual estima que o Brasil tenha se tornado seu segundo maior mercado, com US$ 3,5 bilhões em vendas em 2025. No segundo trimestre deste ano, o restante do mundo, categoria que inclui a América Latina, registrou crescimento de 21,6% na receita, para US$ 4,84 bilhões, impulsionado pelo aumento dos pedidos e da base de clientes na região.

A combinação entre crescimento regional e custos elevados coloca a logística no centro da estratégia da Shein. Enquanto reforça sua estrutura brasileira e aposta no marketplace local, a companhia busca manter preços competitivos e sustentar o volume de pedidos, ao mesmo tempo em que enfrenta uma operação internacional mais sensível às oscilações dos fretes e dos combustíveis.

FUP Explica

O dado mais revelador aqui não é a contratação de 850 pessoas, mas o que ela sinaliza sobre como a Shein está reorganizando seu modelo de negócio diante de uma crise de custos séria. Quando o fulfillment passa a consumir mais da metade da receita e o lucro despenca 66,6% em um único trimestre, a empresa precisa encontrar uma saída que não seja simplesmente repassar tudo ao consumidor, porque preço baixo é exatamente o que a sustenta. A aposta no Brasil, com operação local, marketplace de vendedores brasileiros e estoque próprio comprado de fabricantes nacionais, é uma forma de encurtar a cadeia e reduzir a dependência do frete aéreo internacional, que foi um dos principais vilões da margem.

Do ponto de vista econômico, o movimento tem duas faces. Para a Shein, o Brasil funciona como válvula de escape enquanto Europa e Estados Unidos encolhem: a América Latina cresceu 21,6% em receita no trimestre, e o BTG Pactual estima que o país seja o segundo maior mercado da empresa no mundo. Para o mercado de trabalho local, a expansão gera empregos diretos em logística, um setor que costuma absorver mão de obra com menor barreira de entrada. Por outro lado, a meta de elevar para 85% a participação do marketplace e do estoque local até o fim de 2026 ainda não tem confirmação de cumprimento, o que deixa em aberto se a localização da operação avançou no ritmo planejado.

O risco de médio prazo é que a pressão sobre a margem continue caso os fretes aéreos e o combustível de aviação não recuem, especialmente com as tensões no Oriente Médio sem resolução clara. Se a Shein não conseguir repassar custos nem comprimir a margem indefinidamente, a tendência é que o ajuste venha pelo lado do preço ao consumidor ou pela redução do ritmo de expansão, o que afetaria diretamente os vendedores do marketplace e os trabalhadores recém-contratados no Brasil.

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