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Marcas chinesas desafiam montadoras europeias com presença recorde no Salão de Paris
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Marcas chinesas desafiam montadoras europeias com presença recorde no Salão de Paris

09/10/2026·635 palavras

Fabricantes locais apostam em elétricos mais acessíveis para enfrentar concorrentes que ganham mercado com preços menores e renovação rápida dos modelos

A disputa pelo consumidor europeu ganhará uma vitrine em Paris na próxima semana. Com abertura para a imprensa na segunda-feira (12), o Salão do Automóvel reunirá um recorde de 20 marcas chinesas, que apresentarão veículos elétricos e híbridos para conquistar espaço na região. Diante desse avanço, as montadoras europeias levarão novos modelos, sobretudo elétricos mais acessíveis, para defender suas vendas em um cenário de demanda enfraquecida, pressão sobre custos e investimentos elevados na eletrificação.

A delegação chinesa será o dobro da registrada em 2024, com fabricantes como BYD e Chery acompanhadas por marcas menos conhecidas pelos compradores europeus, entre elas Aito e Avatr. Segundo a Reuters, dados da Schmidt Automotive Research mostram que a participação das marcas chinesas no mercado europeu chegou a 10,7% no segundo trimestre, ante 5,7% um ano antes, superando a fatia das concorrentes japonesas.

Esse crescimento ocorre enquanto a Europa se torna um destino estratégico para as fabricantes da China, diante das barreiras de acesso aos Estados Unidos e da demanda mais fraca em seu mercado doméstico. No sentido contrário, montadoras europeias perderam vendas em território chinês desde a pandemia. Grupos como Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz enfrentam, assim, dificuldades em uma região antes importante para seus resultados e concorrência crescente dentro de casa.

A diferença de custos ajuda a dimensionar o desafio. Conforme a Forbes, a consultoria AlixPartners estima que um elétrico de marca chinesa custa cerca de US$ 20 mil para ser produzido, contra aproximadamente US$ 31 mil para um equivalente europeu. A análise considera essa distância estrutural e avalia que tarifas, isoladamente, não conseguem eliminá-la. Em três meses, a consultoria elevou de 16% para 20% sua projeção de participação chinesa nas vendas europeias em 2030. A competição também envolve a velocidade de desenvolvimento e o software dos veículos.

Segundo o relatório, modelos lançados nos últimos três anos respondem, em média, por menos de um terço das vendas das fabricantes tradicionais europeias. Entre as rivais chinesas, essa proporção varia de 76% a 100%. A consultoria aponta ainda que as concorrentes construíram arquiteturas centradas em software desde o início, favorecendo atualizações mais rápidas.

Enquanto isso, os compradores mudam suas preferências. A Euronews informou, com base na Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA), que os carros totalmente elétricos representaram 21,7% dos novos registros na União Europeia entre janeiro e agosto, ante 15,8% no mesmo período de 2025. Os híbridos convencionais lideraram com 36,6%, e os plug-in alcançaram 10%. Já a participação conjunta de gasolina e diesel caiu de 37,5% para 29%.

As barreiras comerciais influenciam a forma como as marcas chinesas atendem a essa demanda. A União Europeia aplica tarifas antissubsídios de até 35,3% sobre elétricos produzidos na China, além da alíquota regular de importação de 10%. As fabricantes passaram, então, a investir mais em carros a combustão e híbridos plug-in. Nesta última categoria, sua participação na Europa Ocidental superou 26% no segundo trimestre, ante 2,2% dois anos antes. O setor europeu agora pressiona por tarifas também sobre esses veículos.

A reação das montadoras locais combina novos produtos com a recuperação de nomes conhecidos. A Auto Express destaca o retorno do Citroën 2CV em versão elétrica, anunciado por menos de 15 mil euros, além de novidades de Renault, Cupra e Skoda. Modelos com inspiração retrô dividirão espaço com conceitos e veículos de maior valor, em uma tentativa de atrair compradores com diferentes orçamentos.

A disputa, porém, também exige decisões sobre fábricas, empregos e tecnologia. Enquanto reduzem custos, empresas europeias buscam parcerias com concorrentes chinesas e alternativas para instalações subutilizadas. Para a AlixPartners, adiar a reorganização pode diminuir a capacidade de escolha das fabricantes. O salão abrirá ao público de 13 a 18 de outubro, no Paris Expo Porte de Versailles.

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O que o Salão de Paris expõe não é só uma feira de automóveis: é o estado de uma disputa industrial que está redesenhando quem fabrica carros na Europa e em que condições. A vantagem de custo de produção que a AlixPartners aponta, de cerca de US$ 11 mil por veículo a favor das chinesas, é estrutural, não conjuntural. Isso significa que mesmo com as tarifas antissubsídios de até 35,3% aplicadas pela União Europeia, as fabricantes chinesas chegam ao mercado europeu com margem de manobra que as europeias não têm. A consultoria já revisou para cima sua projeção de participação chinesa em 2030, o que sinaliza que o setor não enxerga as barreiras tarifárias atuais como suficientes para reverter a tendência.

O movimento das chinesas para híbridos plug-in é uma resposta direta às tarifas sobre elétricos, e a velocidade dessa adaptação é reveladora. Sair de 2,2% para mais de 26% de participação nessa categoria em dois anos mostra uma capacidade de pivotar que as montadoras tradicionais, com cadeias de fornecimento e plantas industriais mais rígidas, têm dificuldade de acompanhar. O setor europeu percebeu isso e pressiona por tarifas também sobre os híbridos, mas a discussão política tende a ser lenta, e o mercado não espera.

Para trabalhadores e governos europeus, o cenário levanta questões sérias sobre empregos industriais e sobre quais decisões de reestruturação as montadoras conseguirão tomar antes de perder ainda mais espaço. A AlixPartners avisa que adiar a reorganização reduz as opções disponíveis, o que é uma forma direta de dizer que o tempo para ajuste está se esgotando. Parcerias com concorrentes chinesas podem ser uma saída, mas também implicam transferência de tecnologia e dependência que os governos europeus observam com cautela.

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