
Pesquisa aponta que portos deveriam ser o principal foco de investimento
Pesquisa com leitores aponta infraestrutura portuária como prioridade de investimento em shipping. Análise de tendências sem impacto operacional imediato em comex.
Uma pesquisa realizada pela Container News e divulgada nesta segunda-feira (17), apontou a infraestrutura portuária como a principal prioridade de investimento para o setor. O levantamento, chamado de "Readers Speak poll", apresentou quatro opções aos respondentes: infraestrutura portuária, tecnologia de frota, cibersegurança e desenvolvimento de pessoas e competências.
Segundo o veículo, a infraestrutura portuária obteve o maior apoio geral entre os participantes, refletindo a percepção de que terminais e estruturas adjacentes continuam sendo fundamentais para a movimentação de contêineres nas cadeias de suprimento internacionais. A pesquisa não indicou uma estratégia de investimento única, mas sinalizou que infraestrutura portuária é a área que os leitores consideram prioritária.
A cibersegurança também atraiu apoio expressivo, o que indica que a segurança digital ocupa espaço relevante na agenda do setor. O desenvolvimento de pessoas e competências figurou com destaque nos resultados, sugerindo que o investimento na força de trabalho da indústria é visto como prioridade comparável às demais categorias. A tecnologia de frota recebeu menos apoio que a infraestrutura portuária, embora tenha permanecido parte do quadro de investimentos considerado pelos respondentes.
Embora a pesquisa reflita a percepção de profissionais do shipping internacional, o Brasil apresenta um movimento paralelo de expansão em infraestrutura portuária. Segundo análise da RB Investimentos, o Governo Federal prevê a realização de 35 leilões de arrendamentos portuários entre 2024 e 2026, por meio do Ministério de Portos e Aeroportos, com investimentos estimados em R$ 14,5 bilhões. Os projetos abrangem portos em Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro, Pará, Amapá e Paraná.
Em Pernambuco, foram anunciados investimentos federais de R$ 200 milhões para dragagem do Porto de Suape, R$ 100 milhões para dragagem do Porto do Recife e R$ 40 milhões para requalificação do Molhe de Suape, conforme informações divulgadas no Instagram do governo.
O setor privado também aportou recursos no estado, com a inauguração de um novo terminal de contêineres que ampliou em mais de 50% a capacidade de movimentação de contêineres de Pernambuco, segundo a mesma fonte. O empreendimento gerou cerca de 400 empregos diretos e mais de 2 mil empregos indiretos.
Capacidade portuária brasileira e lacunas de infraestrutura
Dados do BNDES de 2019 indicam que os portos brasileiros respondem pelo escoamento de mais de 90% do comércio exterior do país. Apesar disso, apenas os portos de Itaguaí (RJ), Suape (PE) e Pecém (CE), que concentram aproximadamente 15% da carga conteinerizada movimentada nos portos nacionais, têm condições de receber navios de maior porte, conforme o mesmo levantamento do BNDES.
A Container News ressalta que a pesquisa reflete tendências e prioridades de investimento no transporte marítimo internacional e não traz dados específicos sobre volumes, rotas ou produtos. Trata-se de um termômetro da percepção do setor.
FUP Explica
O resultado da pesquisa da Container News não muda nada na prática de imediato, mas diz algo relevante sobre onde o setor de shipping acredita que o dinheiro precisa ir. Quando profissionais do transporte marítimo colocam infraestrutura portuária acima de tecnologia de frota e até de cibersegurança, isso sinaliza que gargalos físicos, como calado insuficiente, capacidade limitada de pátio e acesso terrestre precário, ainda são vistos como o principal freio para a eficiência do setor. É um diagnóstico coletivo, não uma decisão de investimento, mas esse tipo de consenso costuma pautar discussões em fóruns do setor e influenciar onde capital privado e público se concentram nos ciclos seguintes.
No caso brasileiro, a lacuna é conhecida: o BNDES já apontava, em dados de 2019, que apenas três portos nacionais conseguem receber navios de grande porte, o que limita a competitividade das exportações e encarece o frete para quem importa.
O programa de leilões do Ministério de Portos e Aeroportos vai na direção certa, mas o ritmo de execução e a capacidade de atrair operadores qualificados para os arrendamentos são variáveis que ainda precisam ser testadas. Leilão anunciado não é terminal operando, e o histórico brasileiro de atrasos em obras portuárias recomenda cautela antes de comemorar os números projetados.
A presença da cibersegurança como segunda prioridade na pesquisa também merece atenção: portos são infraestrutura crítica cada vez mais digitalizada, e ataques a sistemas de gestão de terminais já causaram paralisações em portos europeus e asiáticos nos últimos anos. Para o Brasil, que ainda está consolidando a digitalização de processos portuários, isso aponta uma agenda que tende a crescer em importância junto com os investimentos físicos.




