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O boom dos data centers encontrou seu limite: energia
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O boom dos data centers encontrou seu limite: energia

03/09/2026·967 palavras

O avanço dos data centers impulsionados pela inteligência artificial levou empresas a solicitar mais de 700 gigawatts em conexões à rede elétrica em partes do Meio-Oeste, Atlântico Médio e Sul dos Estados Unidos, volume mais de dez vezes superior às estimativas do setor para o consumo atual dessas instalações no país. Diante de pedidos que podem ser duplicados, especulativos ou apresentados por empresas sem recursos ou capacidade técnica para executar os projetos, estados como Texas, Pensilvânia e Nova York adotaram medidas para identificar quais empreendimentos têm condições efetivas de sair do papel, segundo levantamento da Reuters.

O fenômeno, conhecido como ghost demand, ou “demanda fantasma”, dificulta o planejamento das redes elétricas porque concessionárias e operadores precisam decidir quanto investir em geração e infraestrutura sem saber qual parcela das solicitações se transformará em consumo efetivo. A Reuters identificou pedidos de mais de 700 gigawatts apresentados principalmente por data centers e outros grandes consumidores de energia nas regiões analisadas.

O Texas tornou-se o primeiro grande polo de data centers dos Estados Unidos a suspender novas conexões dessas instalações à rede enquanto analisa os projetos apresentados. Em 3 de agosto de 2026, o governador Greg Abbott determinou uma auditoria dos data centers presentes na fila de interligação administrada pelo Electric Reliability Council of Texas (ERCOT).

Os pedidos de data centers e outros grandes consumidores de energia no estado passaram de aproximadamente 48 gigawatts em 2023 para mais de 474 gigawatts em 2026, segundo documentos da ERCOT e do governo texano citados pela Reuters. De acordo com o Utility Dive, cerca de 90% dos novos pedidos de energia estão relacionados a data centers.

O volume de 474 gigawatts equivale a mais de cinco vezes o recorde de pico de demanda elétrica do Texas. A dimensão da fila levou Abbott a afirmar que o crescimento das solicitações poderia colocar em risco a confiabilidade e a estabilidade da rede elétrica do estado.

A auditoria deverá identificar os proprietários finais dos centros de dados, substituindo regras que permitiam a apresentação apenas de empresas afiliadas. O processo também analisará o consumo projetado de eletricidade e água, os planos de geração de energia no próprio local e a eventual utilização de incentivos fiscais, subsídios ou outras formas de apoio financeiro público.

Thomas Gleeson, presidente da Comissão de Utilidade Pública do Texas, afirmou em uma conferência do setor que a incerteza dificulta o planejamento da infraestrutura. “Quando você não sabe o que é real, realmente não sabe como construir a infraestrutura para isso”, declarou.

Experiências de concessionárias que adotaram exigências financeiras mais rígidas indicam que uma parcela relevante dos pedidos pode não se transformar em projetos efetivos.

A Exelon, com sede em Chicago, reduziu em cerca de 40% sua estimativa de demanda de data centers considerada de alta probabilidade, para 11 gigawatts, depois de estabelecer exigências mais rígidas de garantias financeiras.

Em Ohio, a concessionária AEP Ohio registrou queda superior à metade em sua fila de demanda após a adoção de regras que incluem taxas de estudo para conexão à rede de até US$ 100 mil para data centers.

Daniel Farris, advogado da Foley & Lardner que assessora empresas responsáveis pelo desenvolvimento de data centers e grandes operadores de infraestrutura computacional, afirmou à Reuters que parte dos participantes atraídos pelo crescimento do setor passou a enfrentar as dificuldades técnicas e financeiras necessárias para colocar os empreendimentos em operação.

Mesmo depois da retirada de projetos considerados pouco prováveis, operadores continuam registrando pedidos suficientes para pressionar redes que enfrentam limitações de oferta.

Na PJM Interconnection, maior rede elétrica dos Estados Unidos e responsável pelo atendimento de 13 estados, incluindo a Virgínia, o crescimento da demanda existente e projetada dos data centers elevou em US$ 29,4 bilhões os custos de capacidade para residências e empresas ao longo de aproximadamente quatro leilões, segundo a Monitoring Analytics, responsável pelo monitoramento independente do mercado.

O porta-voz da PJM, Jeff Shields, reconheceu que o crescimento do consumo está ocorrendo em ritmo superior ao da entrada de nova geração. “A realidade é que a carga está aparecendo, e a geração não está no ritmo que precisamos”.

A situação cria dois riscos para concessionárias e consumidores. Caso as empresas construam menos infraestrutura do que o necessário, a confiabilidade da rede pode ser prejudicada. Se investirem para atender projetos que nunca sejam executados, consumidores podem acabar arcando com parte dos custos de instalações construídas para uma demanda que não se concretizou.

Pensilvânia endurece regras para novos projetos

A Pensilvânia também adotou medidas para filtrar propostas de data centers. O governador Josh Shapiro assinou, em 18 de agosto de 2026, uma ordem executiva que estabelece exigências mais rigorosas de licenciamento para projetos de 25 megawatts ou mais e determina maior divulgação de informações sobre os empreendimentos e seus usuários finais.

Dos mais de 100 data centers propostos no estado, apenas 20 haviam solicitado as licenças necessárias para avançar, segundo um integrante do gabinete do governador ouvido pela Reuters. A maioria dos projetos também não havia garantido fontes de energia nem clientes necessários para financiar os empreendimentos.

Nova York adotou medida semelhante em julho de 2026, suspendendo por até um ano novas aprovações de data centers enquanto desenvolve regras para orientar a instalação dessas unidades.

Setor enfrenta cobrança por maior transparência

A adoção de auditorias, garantias financeiras e novas exigências regulatórias ocorre em meio à tentativa de governos e operadores de rede de separar projetos efetivamente financiados de propostas especulativas.

Tyson Slocum, diretor do Programa de Energia do Public Citizen, afirmou que a iniciativa do Texas busca estabelecer maior organização e transparência em um setor que ainda opera com poucas regras em várias regiões dos Estados Unidos. “Parte do que o Texas está tentando fazer é criar ordem e impor transparência em uma indústria que, em grande parte do país, ainda é como o Velho Oeste”, disse.

FUP Explica

O que está em jogo aqui vai além da infraestrutura elétrica americana. A energia deixou de ser apenas um item de custo operacional para data centers e passou a funcionar como uma espécie de licença política e social para construir capacidade computacional. Isso muda a lógica de localização de investimentos em IA: não basta encontrar energia barata, é preciso demonstrar que o projeto não vai comprometer a confiabilidade da rede local nem encarecer a conta de luz do consumidor residencial. Quando políticos republicanos do Texas, estado que há menos de um ano se vendia como polo mundial de IA, começam a frear o setor por pressão de eleitores preocupados com preço e disponibilidade de energia, o sinal é claro: o apetite político pelo boom dos data centers tem limite.

Para o setor de tecnologia, o risco imediato é de gargalo real de expansão nos EUA. Mesmo que boa parte da ghost demand desapareça com as novas exigências, a demanda substantiva que sobra ainda pressiona redes que não têm geração suficiente para acompanhar o ritmo. Isso abre espaço para tecnologias de armazenamento de energia, geração dedicada no local, microgrids e gestão de demanda, que passam a ser diferenciais competitivos, não apenas opções técnicas. Quem conseguir chegar com o projeto pronto, energia garantida e transparência sobre propriedade e financiamento sai na frente na fila de aprovação.

Para o Brasil, o cenário americano reforça o apelo de destinos com oferta abundante de energia renovável e capacidade de conexão à rede. O país já aparece no radar de investidores de data centers, mas o ambiente regulatório interno, incluindo a ausência de um regime tributário específico desde o fim do Redata em fevereiro de 2026, ainda é uma variável de risco que pode pesar na comparação com outros destinos que oferecem mais previsibilidade.

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