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Coreia do Sul propõe o maior aumento de gastos da história com foco em IA e chips
Tecnologia

Coreia do Sul propõe o maior aumento de gastos da história com foco em IA e chips

01/09/2026·527 palavras

O governo da Coreia do Sul apresentou, nesta terça-feira (1º), uma proposta de orçamento de 821 trilhões de won (cerca de US$ 597 bilhões) para 2027, valor 12,8% superior ao do ano anterior e que representa o maior crescimento anual já proposto para os gastos do país, segundo a Reuters. O plano do presidente Lee Jae-myung prevê aumento dos investimentos, com recursos destinados a áreas como inteligência artificial, semicondutores e tecnologias de próxima geração. A proposta ainda depende de aprovação parlamentar.

O plano marca uma mudança na política fiscal do país, com uma estratégia de aumento dos gastos após o período de maior contenção orçamentária do governo anterior. Parte dos recursos adicionais será destinada a setores considerados estratégicos para a economia sul-coreana.

O desempenho da indústria de semicondutores está entre os fatores que sustentam o aumento da arrecadação. Samsung Electronics e SK Hynix registram forte crescimento dos lucros, impulsionado pela demanda por chips de memória de alta largura de banda (HBM), utilizados na infraestrutura de inteligência artificial.

A receita fiscal total prevista para 2027 deve crescer 40,7%, para 584,4 trilhões de won. A arrecadação com impostos corporativos deve mais do que dobrar e alcançar 216,7 trilhões de won, segundo o ministério responsável pelo orçamento sul-coreano.

Parte do aumento previsto da receita será direcionada a investimentos de longo prazo por meio do Future Response Fund. Em 2027, o fundo receberá 45,4 trilhões de won para financiar iniciativas voltadas ao bem-estar dos jovens, à educação especializada e a setores considerados motores do crescimento futuro.

Governo reforça infraestrutura para produção de chips

O governo também reservou 21,3 trilhões de won para sistemas de abastecimento de água industrial, redes de energia elétrica e infraestrutura logística destinadas a fortalecer a fabricação de semicondutores no país. A produção de chips demanda grandes volumes de água e eletricidade, segundo a Euronews. Outros 2,6 trilhões de won foram destinados a um orçamento específico para semicondutores.

Os investimentos abrangem dez tecnologias consideradas estratégicas, entre elas inteligência artificial, robótica avançada e semicondutores, dentro dos esforços do governo para reforçar a autonomia tecnológica do país, segundo o Economic Times.

A projeção de aumento da receita também acompanha uma redução das necessidades de financiamento por dívida. A emissão total de títulos públicos prevista para 2027 é de 222,8 trilhões de won, ante 225,7 trilhões de won no orçamento de 2026. A emissão líquida deve cair 13,1 trilhões de won, para 96,3 trilhões de won. A relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) é projetada em 48,3% em 2027, abaixo dos 51,6% estimados para 2026.

Apesar da redução prevista nas emissões, o rendimento dos títulos públicos sul-coreanos de dez anos subiu 6,5 pontos-base após a apresentação do orçamento, para 4,378%. O movimento indicou que investidores esperavam uma redução maior na oferta de títulos.

“Teria sido melhor para o mercado se o governo tivesse feito uma redução maior”, afirmou Kong Dong-rak, analista da Daishin Securities, à Reuters. Segundo ele, os rendimentos sul-coreanos também têm sido pressionados por um movimento de venda de títulos de longo prazo nos mercados internacionais.

A proposta de orçamento para 2027 ainda será submetida à análise e à aprovação do Parlamento sul-coreano.

FUP Explica

O que a Coreia do Sul está montando aqui é um ciclo virtuoso com potencial de se tornar referência: os lucros extraordinários das fabricantes de chips alimentam a arrecadação corporativa, que por sua vez financia novos investimentos públicos em infraestrutura tecnológica, o que tende a ampliar a capacidade produtiva do setor e, no médio prazo, sustentar novos ciclos de lucro e arrecadação. É uma aposta de que a liderança em semicondutores pode se autofinanciar por meio do Estado, desde que o governo saiba capturar e reciclar essa renda de forma produtiva.

Do ponto de vista político, o orçamento consolida a virada de Lee Jae-myung em relação ao governo anterior. A criação do Future Response Fund é um movimento inteligente: em vez de distribuir o excedente em gastos correntes, o governo cria um veículo de longo prazo que protege os recursos de pressões políticas imediatas e sinaliza comprometimento com uma agenda de desenvolvimento. Isso também dá ao presidente um instrumento para avançar em pautas sociais, como bem-estar da juventude e educação, sem abrir mão do discurso de responsabilidade fiscal, já que a dívida-PIB cai.

O ponto de atenção é a dependência estrutural que esse modelo cria. Se a demanda por chips de HBM arrefecer, por qualquer razão, a arrecadação corporativa despenca junto, e o governo ficaria com um orçamento dimensionado para uma receita que não se sustenta. A reação do mercado de títulos, com rendimentos subindo apesar da redução nas emissões, sugere que investidores já estão precificando algum ceticismo sobre a durabilidade desse ciclo. Para outros países que acompanham a corrida por IA, o modelo sul-coreano mostra tanto o potencial quanto o risco de apostar o orçamento em um único setor de alta volatilidade.

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