FUP News
Houthis tomam costa do Iêmen e passam a controlar estreito que concentra 12% do comércio mundial
Conflitos

Imagem gerada por IA

Houthis tomam costa do Iêmen e passam a controlar estreito que concentra 12% do comércio mundial

14/09/2026·1536 palavras

Avanço do grupo no litoral do Iêmen reforça sua posição sobre uma das principais rotas marítimas do mundo, enquanto confrontos com forças governamentais e ataques contra a Arábia Saudita elevam a tensão na região.

Os Houthis consolidaram o controle de toda a costa iemenita do Mar Vermelho após capturarem a cidade portuária de Mocha e a estratégica ilha de Mayyun, também conhecida como Perim, segundo informações publicadas pela Al Jazeera em 13 de setembro. O avanço deixou as forças do grupo a cerca de 20 quilômetros da costa africana e, de acordo com a emissora, deu aos Houthis controle efetivo sobre o Estreito de Bab al-Mandeb, passagem de grande importância para o comércio marítimo internacional.

A ofensiva continuou com a ocupação das ilhas de Greater Hanish e Lesser Hanish, cerca de 160 quilômetros ao norte de Bab al-Mandeb. Segundo a Associated Press, que ouviu dois funcionários do governo iemenita e um representante Houthi, centenas de integrantes das forças aliadas ao governo deixaram o arquipélago antes da chegada dos rebeldes.

A tomada das ilhas ocorreu depois da captura de Mocha, no litoral, e de Mayyun, situada dentro do Estreito de Bab al-Mandeb. A sequência de avanços fortaleceu a posição dos Houthis em uma passagem pela qual circulam aproximadamente 12% do comércio mundial, incluindo 11% do petróleo transportado por via marítima e 8% do gás natural liquefeito (GNL), segundo dados citados pela Al Jazeera.

Diante das perdas territoriais, as forças ligadas ao governo iemenita passaram a se reorganizar para tentar recuperar Mocha, segundo o Público. O movimento faz parte da reação à rápida ofensiva dos Houthis na costa oeste, onde tropas governamentais foram obrigadas a recuar após a queda da cidade portuária e de posições próximas a Bab al-Mandeb.

Nesta segunda-feira (14), os Houthis afirmaram ter lançado dezenas de mísseis balísticos e drones contra alvos na Arábia Saudita, enquanto forças ligadas ao governo iemenita reconhecido internacionalmente avançavam sobre posições do grupo na província de Taiz.

Segundo comunicado dos Houthis, os ataques tiveram como alvo instalações militares e de infraestrutura, incluindo hangares de aeronaves, sistemas de radar, pistas e depósitos de munição na base aérea King Khalid, em Khamis Mushait. A Arábia Saudita não havia comentado imediatamente a reivindicação.

Em outra reivindicação divulgada no domingo (13), os Houthis disseram ter utilizado drones e mísseis contra a base militar de Sharurah, no sul da Arábia Saudita. O porta-voz militar do grupo, Yahya Saree, afirmou que a operação teve como alvo depósitos de armas e centros de comando e controle. A Arábia Saudita não confirmou o ataque, enquanto a Defesa Civil informou que sirenes foram acionadas na região de Sharurah, sem registro de danos.

A defesa civil saudita também emitiu no domingo (13) alertas para a cidade de Abha e para a região de Khamis Mushait, mas os avisos foram retirados pouco depois. A Associated Press informou ainda que autoridades sauditas registraram a queda de um projétil em outra região próxima à fronteira com o Iêmen, no Mar Vermelho. O incidente deixou duas pessoas feridas e danificou uma mesquita e outros edifícios. As autoridades sauditas atribuíram o ataque aos Houthis.

Os Houthis afirmaram que seus ataques foram uma resposta a uma ofensiva saudita que, segundo o grupo, envolveu mais de 300 ataques aéreos contra o Iêmen em cinco dias. Esse número corresponde à versão apresentada pelos rebeldes e não aparece nas fontes consultadas como uma contagem confirmada de forma independente. Em outra contabilização divulgada pelo grupo e repercutida pela Opera Mundi, aeronaves sauditas teriam realizado 129 ataques aéreos contra áreas sob controle houthi em um período de 48 horas. Riad também não confirmou esse número.

No oeste da província de Taiz, forças ligadas ao governo iemenita avançaram no domingo depois de repelirem uma ofensiva houthi, segundo reportagem da Al Jazeera publicada nesta segunda-feira.

O avanço ocorreu com apoio de ataques aéreos contra posições dos Houthis. Uma fonte das forças governamentais afirmou à Al Jazeera que os bombardeios atingiram agrupamentos do grupo, inclusive nas regiões de Mocha e Dhubab, na costa oeste.

Os confrontos também se intensificaram na região de Kadha, no distrito de Maqbanah, próximo a Taiz. Segundo a Opera Mundi, forças alinhadas ao governo realizaram três bombardeios contra posições e quartéis dos Houthis na região.

Outra frente de combate se abriu em Marib, no norte do país. Forças governamentais teriam impedido um avanço dos Houthis nas áreas de al-Mashjah e al-Zour, a oeste da cidade. Marib permanece como um dos principais redutos do governo iemenita no norte e tem importância estratégica por concentrar produção de petróleo e gás, além de instalações militares.

O governador de Marib e integrante do conselho presidencial, Sultan al-Arada, afirmou que as tropas governamentais estavam se reorganizando para retornar aos combates. A declaração ocorreu após os recuos sofridos pelas forças governamentais diante da ofensiva houthi na costa oeste.

As Forças de Resistência Nacional, alinhadas ao governo iemenita, também informaram que os confrontos na costa oeste entre 9 e 10 de setembro deixaram 500 mortos e cerca de 1.500 feridos. Os números foram divulgados pelas próprias forças envolvidas no conflito e não aparecem nas fontes consultadas como um balanço confirmado de maneira independente.

Os novos confrontos ameaçam encerrar um período de relativa estabilidade iniciado depois da trégua mediada pela Organização das Nações Unidas (ONU), que interrompeu a violência em larga escala em 2022. Os combates voltaram a ganhar intensidade em julho deste ano, quando os Houthis declararam um bloqueio marítimo contra a Arábia Saudita e passaram a atacar embarcações sauditas no Mar Vermelho.

A posição conquistada pelos Houthis aumenta a capacidade do grupo de ameaçar embarcações que passam por Bab al-Mandeb. O especialista em segurança marítima e ex-oficial naval Alexandru Cristian Hudisteanu afirmou à Al Jazeera que o estreito é mais estreito que o Estreito de Ormuz e que os recentes ganhos territoriais tornam mais simples para os Houthis atingir navios.

Um vídeo citado pela emissora mostra um comandante Houthi afirmando que peças de artilharia poderiam ser instaladas no litoral para atingir alvos em águas próximas ao Iêmen. A Al Jazeera ressalta, porém, que os ganhos territoriais não alteram de forma fundamental a capacidade militar geral do grupo, segundo a avaliação de Hudisteanu.

Apesar das preocupações, o membro do politburo houthi Hazem al-Assad afirmou que a liberdade de navegação e o comércio internacional no Mar Vermelho e em Bab al-Mandeb permanecem "seguros e ordenados".

Antes do avanço de setembro, os Houthis já haviam anunciado que a navegação pelo estreito permaneceria aberta às companhias marítimas, com exceção de embarcações sauditas submetidas ao bloqueio declarado pelo grupo.

Os efeitos econômicos associados à insegurança no Mar Vermelho antecedem a atual ofensiva. Dados do IMF PortWatch citados pela Al Jazeera mostram que o volume e a tonelagem de embarcações que atravessaram a região caíram entre 50% e 55% de 2023 a 2025, período marcado por ataques dos Houthis contra a navegação comercial.

Entre novembro de 2023 e meados de 2025, os Houthis atacaram mais de 100 embarcações comerciais no Mar Vermelho que o grupo afirmava estarem vinculadas a Israel ou a seus aliados. Mesmo depois da interrupção daquela campanha, empresas de navegação continuaram utilizando rotas alternativas.

Grandes operadores marítimos ainda desviam embarcações pelo Cabo da Boa Esperança, no sul da África. Segundo a Al Jazeera, a mudança pode acrescentar mais de 20 dias ao tempo de viagem e elevar os custos do transporte de cargas.

O Egito foi diretamente afetado pela redução do tráfego no Mar Vermelho. Dados oficiais citados pela Al Jazeera apontam perdas de aproximadamente US$ 7 bilhões entre 2023 e 2024, equivalentes a cerca de 60% das receitas do Canal de Suez no período.

A Operação Atalanta, missão liderada pela União Europeia, pode enfrentar limitações para responder a uma nova sequência de ataques no Mar Vermelho devido às restrições de seu mandato, segundo avaliação de Hudisteanu à Al Jazeera.

O especialista também afirmou que o deslocamento da atenção e de ativos navais para Bab al-Mandeb e para o Estreito de Ormuz abriu lacunas de segurança no Chifre da África. Segundo ele, houve ressurgimento da pirataria, especialmente na costa da Somália, associado à mudança do foco das forças navais internacionais.

A preocupação internacional com a segurança da navegação já havia aumentado antes dos atuais avanços territoriais. Em 24 de julho, altos funcionários da ONU condenaram ataques dos Houthis contra embarcações comerciais sauditas no Mar Vermelho. O enviado especial das Nações Unidas para o Iêmen, Hans Grundberg, manifestou preocupação com a retomada das ações contra navios e defendeu a preservação dos avanços obtidos com a trégua de 2022.

Confrontos deslocam quase 86 mil pessoas

A retomada da guerra também provocou uma nova onda de deslocamentos. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) informou que quase 86 mil pessoas foram deslocadas pelos confrontos das últimas semanas no Iêmen, segundo reportagem da Al Jazeera publicada nesta segunda-feira.

Mais de 2 mil pessoas também deixaram o país e chegaram ao vizinho Djibuti. No domingo (13), a OIM informou que mais de 2 mil iemenitas haviam cruzado para o país africano nas 24 horas anteriores.

Parte dos refugiados chegou a Obock, cidade de Djibuti situada a cerca de 20 quilômetros da costa do Iêmen. Segundo a OIM, os recém-chegados estão recebendo alimentos e água, mas a organização alertou que mais assistência é necessária.

FUP Explica

O controle houthi do Estreito de Bab al-Mandeb fecha um cerco que já estava se desenhando desde o início de 2026. Com o Estreito de Ormuz bloqueado pelo Irã desde fevereiro, os dois principais gargalos marítimos do Oriente Médio operam simultaneamente sob controle de aliados de Teerã. Isso não é coincidência geopolítica: é uma alavancagem coordenada que coloca o comércio energético mundial em posição de vulnerabilidade sem precedente recente.

Para o comércio marítimo, o efeito prático já estava visível antes mesmo dessa consolidação territorial: queda de 50% a 55% no tráfego pelo Mar Vermelho entre 2023 e 2025, desvios pelo Cabo da Boa Esperança que adicionam mais de 20 dias de trânsito e custos de frete elevados. Com os Houthis agora fisicamente instalados em ilhas dentro e próximas ao estreito, a capacidade de interdição aumenta, e armadores e seguradoras tendem a precificar esse risco de forma ainda mais conservadora. Quem paga a conta final é o consumidor, via preço de energia e de produtos que dependem de frete marítimo.

O Egito é o caso mais concreto de dano econômico mensurável: 7 bilhões de dólares perdidos em receitas do Canal de Suez entre 2023 e 2024. Se o desvio pelo Cabo da Boa Esperança se consolidar como padrão, essa perda tende a se aprofundar, pressionando uma economia que depende fortemente dessas tarifas para obter moeda estrangeira. No plano regional, a ausência de resposta militar organizada, com a Operação Atalanta limitada por seu mandato e as marinhas dos EUA e China focadas em outros pontos de tensão, abre espaço para que os Houthis consolidem a posição sem custo imediato. A pirataria ressurgindo na costa somali é um sinal de que o vácuo de segurança marítima na região já tem consequências práticas além do conflito principal.

Compartilhar:WhatsAppX (Twitter)LinkedIn

Leia também