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Dependência rodoviária eleva custo logístico da América Latina, aponta CAF
Logística

Dependência rodoviária eleva custo logístico da América Latina, aponta CAF

03/08/2026·580 palavras
Baixa participação ferroviária mantém custos logísticos elevados na América Latina, impulsionando investimentos bilionários em novos corredores ferroviários para reduzir dependência rodoviária.

A logística na América Latina segue presa a uma dependência estrutural do transporte rodoviário que eleva os custos a patamares muito acima da média internacional e limita a competitividade das exportações regionais. O diagnóstico é de estudos do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e da União Internacional de Ferrovias (UIC), citados pelo Transporte Moderno.

Mais de 80% das cargas da região são transportadas por rodovias, enquanto as ferrovias respondem por apenas 7% a 10% da matriz regional, conforme dados da CAF reproduzidos pelo Transporte Moderno. O contraste com a América do Norte é marcante: nos Estados Unidos, Canadá e México, o modal ferroviário é o principal para cargas de longa distância, movimentando granéis, produtos industriais, automóveis e contêineres intermodais.

Por país, o Brasil tem a maior participação ferroviária da região, com cerca de 22% da matriz de cargas, seguido pelo México, com aproximadamente 14%, e pela Argentina, com próximo de 5%. No Brasil, o Observatório do Custo Brasil registrou, em setembro de 2024, que o transporte rodoviário ainda representava mais de 70% do fluxo nacional de cargas.

Essa concentração no modal rodoviário tem custo direto: estudos da CAF estimam que os custos logísticos representam entre 14% e 18% do valor dos produtos comercializados na América Latina, praticamente o dobro da média registrada nos países da OCDE. O mesmo levantamento aponta que o comércio entre os próprios países latino-americanos representa menos de 20% das transações da região, resultado em parte dessa ineficiência.

Estudos da UIC, indicam que, em corredores adequadamente estruturados, os custos logísticos podem cair entre 30% e 50%. Em média, o transporte ferroviário é cerca de 40% mais econômico que o rodoviário para cargas de grande escala e pode emitir até 80% menos gases de efeito estufa.

Apesar do potencial, a integração ferroviária na região esbarra em obstáculos concretos. O relatório da UIC, lista diferentes bitolas entre países, baixa interoperabilidade das redes, trechos subutilizados e conexões insuficientes entre ferrovias, portos e centros produtores. Essa fragmentação impede a formação de corredores logísticos internacionais eficientes.

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Investimentos e metas em curso

Um levantamento da CAF identificou cerca de 155 projetos ferroviários em desenvolvimento na América Latina, com investimentos estimados entre US$ 380 bilhões e US$ 400 bilhões, conforme o Transporte Moderno. No México, o Corredor Interoceânico do Istmo de Tehuantepec e a modernização de linhas de carga figuram entre os projetos em andamento. Argentina, Colômbia, Chile e Uruguai também têm iniciativas para reativar corredores e estruturar novos modelos de concessão. Os corredores bioceânicos aparecem entre as iniciativas com maior potencial de integração regional, segundo o Transporte Moderno.

No Brasil, a meta do governo é elevar a participação ferroviária de 22% para 30% da matriz de cargas. Murilo Martins, CEO da Loram para a América do Sul e África, afirmou no Fórum Infraestrutura, Logística e Transportes do LIDE que essa expansão dependerá não só da construção de novos trechos, mas também de investimentos permanentes em manutenção, digitalização e aumento da produtividade da infraestrutura existente.

O Observatório do Custo Brasil apontou, em setembro de 2024, que o Plano Nacional de Logística (PNL 2035) projeta que uma redistribuição eficiente entre os modais rodoviário, ferroviário e de cabotagem poderia reduzir o custo logístico de R$ 283 bilhões para R$ 59 bilhões, queda de 12,9% no custo por tonelada transportada. O potencial de redução no chamado Custo Brasil chegaria a R$ 224,76 bilhões, conforme o cenário 4 do PNL 2035.

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O problema aqui não é novo, mas os números ajudam a dimensionar o tamanho do buraco: custos logísticos que chegam ao dobro da média dos países desenvolvidos funcionam como um imposto invisível sobre tudo que a região produz e tenta vender para fora. Para o Brasil, isso pesa especialmente no agronegócio, onde as cargas percorrem longas distâncias até os portos e qualquer ineficiência no trajeto corrói a margem do exportador antes mesmo do embarque.

O volume de projetos mapeados pela CAF, quase 155 iniciativas com investimentos na casa dos US$ 400 bilhões, mostra que há disposição política e interesse privado no tema. O problema é que intenção de investimento e execução são coisas muito diferentes na América Latina, onde projetos de infraestrutura costumam arrastar por décadas entre licenciamentos, disputas de concessão e falta de financiamento de longo prazo. A fragmentação técnica das redes, com bitolas diferentes entre países e baixa interoperabilidade, adiciona uma camada de complexidade que vai além do dinheiro disponível.

Para o Brasil especificamente, a meta de elevar a participação ferroviária de 22% para 30% da matriz é ambiciosa e depende de um conjunto de condições que vai além da construção de novos trilhos: manutenção da malha existente, digitalização das operações e, principalmente, consistência regulatória para atrair o capital privado que o governo não tem como mobilizar sozinho. Sem isso, o cenário de redução de R$ 224 bilhões no Custo Brasil projetado pelo PNL 2035 fica no papel.

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