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Crise de Ormuz cria nova logística: cargas de GNL são transferidas entre navios para escapar do estreito
Pelo menos três cargas de gás natural liquefeito (GNL) do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos foram transferidas entre navios em águas próximas a Omã e aos Emirados, fora do Estreito de Ormuz, em meio às restrições à navegação provocadas pelo conflito com o Irã. As operações ship-to-ship (STS), identificadas por dados de rastreamento da Vortexa e da Kpler e reportadas pelo Energy Connects, permitem que embarcações transportem o combustível para fora da área de maior risco antes de transferi-lo a navios responsáveis pelas viagens até os destinos finais.
As manobras são incomuns no mercado de GNL. Diferentemente do petróleo bruto, o gás liquefeito precisa permanecer em temperaturas extremamente baixas durante a transferência, o que torna a operação entre embarcações mais complexa.
O movimento ocorre após o conflito iniciado em 28 de fevereiro de 2026 restringir fortemente a navegação pelo Estreito de Ormuz. Segundo a Organização Marítima Internacional (OMI), cerca de 20 mil marinheiros permaneciam retidos em aproximadamente 2 mil navios na região, enquanto apenas quatro ou cinco embarcações conseguiam atravessar o estreito por dia. Antes do conflito, a média era de cerca de 150 navios diariamente.
As três operações identificadas seguem um modelo semelhante: embarcações transportam as cargas dos terminais de exportação localizados no Golfo Pérsico e, fora do Estreito de Ormuz, transferem o GNL para outros navios, que seguem até os mercados consumidores.
Segundo Go Katayama, analista principal de GNL da Kpler, o modelo “permite que navios shuttle movam cargas de Das Island e as transfiram fora do estreito, reduzindo a exposição para outros transportadores de GNL”, conforme declaração reproduzida pelo Energy Connects.
Caso o modelo se consolide, as operações representarão as primeiras ocorrências conhecidas de GNL originário do interior do Golfo Pérsico transferido para outra embarcação fora de Ormuz, segundo o Energy Connects. Antes do conflito, a região registrava aproximadamente três embarques de GNL por dia.
Carga do Qatar é transferida próximo a Omã
Uma das operações envolveu o GasLog Shanghai, que havia sofrido um incidente em 31 de julho enquanto deixava o Estreito de Ormuz com uma carga embarcada no terminal de Ras Laffan, no Qatar.
O navio realizou uma transferência STS com o GasLog Savannah próximo à costa de Omã, segundo dados da Vortexa e da Kpler reportados pelo Energy Connects. As duas embarcações são controladas pela empresa grega GasLog. A QatarEnergy e a GasLog não responderam aos pedidos de comentário.
Outra transferência envolveu o Al Rekayyat, navio controlado pela QatarEnergy que havia sido atingido por um projétil próximo ao Estreito de Ormuz no início de julho.
Em meados de agosto, a embarcação transferiu sua carga para o Tembek, outro navio de GNL do Qatar, na costa leste dos Emirados Árabes Unidos. O combustível havia sido carregado originalmente em Ras Laffan e foi posteriormente transportado pelo Tembek até o terminal de Dahej, na Índia, segundo dados da Kpler.
A terceira operação identificada envolveu o Mraweh, controlado pela Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC), que havia carregado GNL na Ilha Das no início de agosto.
O Mraweh transferiu a carga para o LNG Enugu em meados do mesmo mês, próximo à costa de Omã e fora do Estreito de Ormuz. O LNG Enugu, de propriedade conjunta do BW Group e da trading japonesa Marubeni, seguia em direção a Futtsu, no Japão, de acordo com dados da Kpler.
Imagens de satélite do Copernicus Sentinel-2 capturadas em 16 de agosto mostraram o LNG Enugu ancorado próximo à cidade de Sohar, no Golfo de Omã, em posição paralela a uma segunda embarcação, configuração característica de uma operação STS, segundo o Energy Connects.
A ADNOC não comentou o caso. BW Group e Marubeni não responderam aos pedidos de comentário.
Restrição de oferta pressiona preço do GNL
As exportações de GNL da região diminuíram desde o início do conflito, em fevereiro de 2026, enquanto as restrições à navegação e a adoção de rotas alternativas elevaram os custos das operações.
Nesse cenário, o preço do GNL no mercado spot asiático chegou a aproximadamente US$ 23,20 por milhão de BTU, mais que o dobro do nível registrado antes do conflito, segundo o Energy Connects. A menor disponibilidade do combustível e o aumento dos custos logísticos contribuíram para a alta.
FUP Explica
O que está acontecendo aqui vai além de um desvio de rota. Empresas como QatarEnergy, ADNOC, GasLog, BW Group e Marubeni estão, na prática, redesenhando a arquitetura da operação marítima de GNL: separam o trecho de alto risco, dentro do Golfo, da viagem internacional de longa distância. Isso tem consequências em cadeia que ainda estão se desdobrando.
Do ponto de vista econômico, o sinal mais imediato é o preço: GNL spot asiático a US$ 23,20 por milhão de BTU, mais que o dobro do nível pré-conflito, é um choque que se transmite para custos industriais e tarifas de energia em países importadores como Índia e Japão. Se a prática STS se consolidar como solução de médio prazo, ela tende a elevar estruturalmente o custo do GNL do Golfo, porque adiciona uma camada de operação, seguro e tempo de navio a cada carga. Quem paga essa conta, no fim, são os compradores finais.
Do ponto de vista operacional e logístico, a disseminação das transferências STS de GNL cria demanda por ativos que hoje são escassos: áreas de fundeio seguras fora de Ormuz, navios shuttle disponíveis, compatibilidade técnica entre embarcações para manter o gás super-resfriado durante a transferência e cobertura de seguro para operações em zona de risco elevado. Hubs como Fujairah e Sohar, em Omã, ganham relevância nesse cenário. A disponibilidade de navios adequados também vira gargalo: não é qualquer tanqueiro que consegue fazer STS de GNL com segurança. Por isso, a capacidade de escalar esse modelo tem limites técnicos e de frota que ainda não estão claros.




