
Imagem gerada por IA
Colisão entre navios na Turquia: relatório aponta falhas nas duas embarcações e diz que tragédia poderia ter sido evitada
Relatório pericial preliminar aponta falhas de vigilância na ponte de comando, problemas relacionados ao AIS e uma manobra contrária ao acordo feito por rádio como fatores determinantes para a colisão no mar de Mármara.
A investigação sobre a colisão entre dois navios mercantes de bandeira turca no mar de Mármara, em frente ao distrito de Silivri, em Istambul, ganhou novos elementos nesta quinta-feira (3). Um relatório pericial preliminar concluiu que falhas nas duas embarcações contribuíram para o acidente e apontou que a tragédia poderia ter sido evitada com uma atuação adequada da equipe da ponte de comando.
O acidente envolveu o ALSU, navio-tanque químico de propriedade da Ozpulathane Deniz Tasimaciligi, e o Tugberk Imamoglu, cargueiro pertencente à Zeybe Denizcilik. O segundo navio, que levava 10 tripulantes, afundou rapidamente após a colisão.
O ALSU seguia para o porto de Aliaga, no mar Egeu, enquanto o Tugberk Imamoglu tinha como destino Karadeniz Eregli, no mar Negro.
No momento do acidente, o Tugberk Imamoglu transportava aproximadamente 4,2 mil toneladas de produtos de aço, enquanto o ALSU levava cerca de 3 mil toneladas de óleo de motor. A colisão ocorreu por volta das 3h15, em uma região caracterizada pelas autoridades turcas como uma área de tráfego marítimo intenso.
Segundo informações divulgadas anteriormente pelas autoridades, um sinal do dispositivo de emergência do Tugberk Imamoglu foi recebido às 3h26. O curto intervalo indica que a embarcação afundou poucos minutos depois da colisão.
No âmbito da investigação conduzida pela Procuradoria-Geral de Silivri, o relatório pericial preliminar apontou como principal causa da tragédia a "indisciplina bilateral na ponte de comando, o abandono completo dos padrões de vigilância e a perda de consciência situacional".
Os peritos identificaram problemas nas duas embarcações, mas atribuíram papéis diferentes às falhas constatadas.
No Tugberk Imamoglu, o fato de o dispositivo AIS estar desligado, apresentar mau funcionamento ou não operar adequadamente devido a interferências externas foi apontado como um dos fatores relevantes. O relatório também destacou que a embarcação virou para estibordo nas últimas 0,5 milhas antes da colisão, contrariando a manobra acordada anteriormente por comunicação via rádio.
Segundo a avaliação pericial, esses fatores funcionaram como o gatilho que desencadeou fisicamente a colisão. O relatório, entretanto, afirma que a causa fundamental para que o acidente resultasse em uma tragédia está relacionada às fragilidades existentes na ponte de comando do ALSU.
Entre as irregularidades identificadas no ALSU, o relatório destacou a composição da equipe responsável pela navegação no momento do acidente, pois havia somente um oficial na ponte de comando. Ele havia embarcado no dia anterior e cumpria seu primeiro turno de serviço naquela embarcação. Não havia vigia ou timoneiro designado para auxiliá-lo.
O capitão também não estava na ponte de comando no momento da colisão. Segundo as informações reunidas pelos peritos, ele estava em sua cabine e chegou à ponte aproximadamente sete a dez minutos depois do acidente.
A ausência de pessoal suficiente teria reduzido a capacidade de monitorar o tráfego ao redor do navio e identificar antecipadamente alterações na trajetória da outra embarcação. O relatório considera que essas deficiências prejudicaram a consciência situacional da equipe do ALSU em uma área de tráfego marítimo intenso e durante a navegação noturna.
A comissão de especialistas concluiu que havia possibilidade de evitar a colisão. Segundo a avaliação técnica, se a mudança de trajetória do Tugberk Imamoglu tivesse sido identificada quando as embarcações ainda estavam separadas por aproximadamente 1,5 a 1,8 milhas, em vez de apenas 0,5 milha, o ALSU teria condições de executar manobras de emergência.
Uma parada de motor realizada a tempo ou uma reversão emergencial de empuxo poderia ter evitado completamente a colisão ou, ao menos, reduzido a intensidade do impacto. Nesse segundo cenário, segundo os especialistas, seria possível inclusive evitar o naufrágio do Tugberk Imamoglu.
Essas conclusões reforçam o peso atribuído pelo relatório às deficiências de vigilância e de gestão da ponte do ALSU, apesar de a manobra do Tugberk Imamoglu ter sido apontada como o fator que desencadeou diretamente a colisão.
O Tugberk Imamoglu sofreu danos graves no lado de bombordo e começou a receber grande quantidade de água depois da colisão. O ALSU, por sua vez, sofreu principalmente arranhões no lado de estibordo e não apresentou danos que comprometessem sua capacidade de navegação.
O rápido naufrágio do cargueiro também passou a fazer parte da investigação.
O Tugberk Imamoglu transportava 4.199 toneladas de produtos de aço. Esse tipo de carga possui elevada densidade e exige cuidados específicos de acondicionamento e fixação. A entrada rápida de água após danos extensos no casco, combinada às condições de carregamento, pode ter contribuído para acelerar a perda de estabilidade da embarcação.
Os peritos, entretanto, ainda não estabeleceram definitivamente por que o navio afundou em tão pouco tempo.
Peritos pedem novas provas sobre o naufrágio
Para esclarecer as causas do rápido afundamento, o comitê de especialistas solicitou novas análises. Entre os documentos requisitados estão o plano de carregamento do Tugberk Imamoglu, os documentos relativos à amarração e fixação da carga, os cálculos de estabilidade e os registros de classificação e vistoria da embarcação.
Também foram solicitadas imagens de câmeras relacionadas à operação de carregamento. A intenção é verificar as condições em que a carga estava distribuída e fixada antes da viagem e determinar se esses elementos tiveram influência na velocidade do naufrágio.
O relatório pediu ainda que todas as comunicações de rádio VHF anteriores ao acidente sejam incorporadas ao processo, além de gravações detalhadas do radar do sistema de controle de tráfego marítimo, o VTS, e imagens das câmeras externas do ALSU. Esses elementos deverão ajudar os investigadores a reconstruir os minutos que antecederam a colisão e determinar com maior precisão as ações tomadas pelas equipes das duas embarcações.
A perícia também analisou as condições meteorológicas e marítimas existentes no momento da colisão.
A visibilidade era de aproximadamente seis milhas náuticas e não havia nevoeiro, chuva intensa ou correntes fortes capazes de restringir significativamente as manobras. O vento soprava do norte com força aproximada de 4 na escala Beaufort, enquanto o estado do mar foi descrito como força 3. Diante dessas condições, os especialistas não identificaram fatores naturais adversos capazes de explicar diretamente o acidente.
Investigação continua
As conclusões divulgadas são preliminares e a investigação conduzida pela Procuradoria-Geral de Silivri permanece em andamento.
As autoridades deverão analisar os registros de navegação, comunicações por rádio, dados de radar, condições da carga e documentos técnicos das embarcações antes de estabelecer definitivamente as responsabilidades pelo acidente.
O relatório preliminar, contudo, altera de forma significativa o quadro inicialmente conhecido. Enquanto as primeiras informações disponíveis após a colisão não indicavam sua causa, a perícia agora aponta uma combinação de falhas operacionais nas duas embarcações.
No Tugberk Imamoglu, destacam-se os problemas relacionados ao AIS e a mudança para estibordo nas últimas 0,5 milhas, contrariando a manobra combinada por rádio. No ALSU, as principais deficiências estão relacionadas à organização da ponte de comando, à ausência de vigilância adequada e à demora na identificação da mudança de trajetória da outra embarcação.
A apuração também deverá esclarecer por que o Tugberk Imamoglu afundou tão rapidamente e se as condições de carregamento, estabilidade e fixação da carga contribuíram para o desfecho do acidente.
FUP Explica
O relatório preliminar é relevante porque desloca a narrativa de um acidente com causa única para um quadro de falhas simultâneas e independentes nas duas embarcações. Isso tem peso jurídico direto: a Procuradoria-Geral de Silivri conduz uma investigação criminal, e a distribuição de responsabilidades entre os dois navios tende a complicar a apuração de culpa e, consequentemente, os processos de indenização às famílias dos tripulantes do TUĞBERK İMAMOĞLU.
Do ponto de vista operacional e regulatório, as falhas apontadas no ALSU são as mais graves institucionalmente. Um único oficial sem experiência prévia naquela embarcação, sem vigia, sem timoneiro e com o capitão ausente da ponte durante a madrugada em área de tráfego intenso é uma violação dos padrões mínimos de segurança da navegação. Isso abre espaço para questionamentos sobre os procedimentos das duas empresas armadoras e sobre a fiscalização das autoridades marítimas turcas. Se a investigação confirmar que essas condições eram recorrentes, a pressão por medidas regulatórias mais rígidas tende a crescer.
A questão do AIS desligado ou com mau funcionamento no Tugberk Imamoglu também merece atenção: o sistema é central para a consciência situacional de qualquer embarcação próxima, e sua ausência reduz drasticamente a capacidade de outros navios anteciparem movimentos. A investigação ainda não determinou se o problema foi técnico ou operacional, e essa distinção importa tanto para a responsabilização quanto para eventuais exigências de manutenção preventiva. Por fim, o rápido naufrágio do cargueiro, carregado com mais de 4 mil toneladas de produtos de aço, ainda não tem explicação definitiva, e os documentos de estabilidade e fixação de carga solicitados pelos peritos podem revelar irregularidades adicionais que ampliem o escopo da investigação.
Leia também

Tufão Saudel atinge Fujian pela terceira vez e força retirada de mais de 83 mil pessoas
há cerca de 13 horas

Tufão Saudel provoca inundações e paralisa cidades na província de Fujian, na China
há 1 dia

China compra petróleo russo em massa e crise de Ormuz abre espaço inesperado para barris brasileiros
há 1 dia

