
Bab el-Mandeb registra menor tráfego em meses após ataques a instalações sauditas
O Estreito de Bab el-Mandeb registrou seu menor volume de tráfego em meses no domingo 26 de julho, depois que os Houthis do Iêmen confirmaram ataques a instalações da petroleira estatal saudita Aramco nas cidades de Jizán e Yanbu. O porta-voz militar do grupo, Yahya Saree, assumiu a operação como parte de uma estratégia declarada de bloquear exportações sauditas, e o efeito imediato foi a quase paralisia da hidrovia que responde por até 5% do comércio internacional de petróleo, segundo a Agência Internacional de Energia.
No dia do ataque, apenas onze embarcações cruzaram o estreito, sendo sete delas petroleiros. Três navios entraram no Mar Vermelho com destino ao Porto de Yanbu para carregar petróleo saudita, incluindo dois superpetroleiros.
No sentido oposto, quatro navios deixaram a região, entre eles o New Explorer e o New Pearl, ambos de bandeira hongkonesa, transportando ao todo cerca de quatro milhões de barris de petróleo saudita e emiratense com destino à China. O New Pearl foi identificado como a quarta embarcação de grande calado vinculada à China a conseguir sair da região desde o início do bloqueio, um dado que ilustra a dificuldade crescente de escoamento.
Em paralelo, o Estreito de Ormuz também operou em mínimos históricos no mesmo fim de semana, com média inferior a dez navios diários. No sábado 25, apenas três embarcações cruzaram o estreito com os transponders desligados, prática que dificulta o rastreamento e sinaliza o nível de insegurança percebido pelos operadores.
Infraestrutura saudita no centro do risco
A preocupação dos especialistas vai além do bloqueio ao tráfego de navios. Bjorn Vang Jensen, consultor executivo da Xeneta, alerta que a ameaça mais crítica é a possibilidade de ataques à infraestrutura de produção, armazenamento e portos de petróleo na região. Esse tipo de ação teria capacidade de desorganizar o fornecimento regional de energia de forma muito mais duradoura do que simples desvios de rota.
A Arábia Saudita ampliou sua dependência do Mar Vermelho como alternativa ao Estreito de Ormuz, utilizando o Oleoduto Leste-Oeste para escoar petróleo até o porto de Yanbu. Essa rota alternativa, no entanto, só alcança mercados globais — especialmente os asiáticos — se a passagem pelo Bab el-Mandeb permanecer segura. Com os dois chokepoints operando sob risco elevado ao mesmo tempo, a margem de manobra logística da região estreita-se de forma significativa.
Os preços do petróleo físico na Europa, África e Oriente Médio atingiram seus maiores patamares em dois meses logo após os ataques. Especialistas estimam que o fechamento efetivo do Bab el-Mandeb poderia elevar os custos de transporte de petroleiros entre 20% e 40% em condições normais de crise, podendo ultrapassar 50% nos períodos de maior tensão, em reflexo da combinação entre rotas mais longas e prêmios de seguro mais elevados.
FUP Explica
As transportadoras de contêineres já respondem à escalada com sobretaxas emergenciais de combustível, aplicadas sem aviso prévio prolongado. Importadores de petróleo, nafta e petroquímicos com origem no Oriente Médio enfrentam atrasos e volatilidade de preço. Exportadores de commodities agrícolas com destino à Ásia via Canal de Suez também são afetados, já que essa rota depende diretamente da passagem pelo estreito.
O desvio pelo Cabo da Boa Esperança, alternativa adotada por diversas companhias para evitar o Mar Vermelho, adiciona dias significativos ao trânsito e aumenta o consumo de combustível. Há ainda o agravante do ressurgimento da pirataria somali: rotas mais longas ampliam o tempo de exposição em águas historicamente vulneráveis, elevando o custo e a complexidade dos seguros de carga.
No front diplomático, esforços de mediação seguem em curso. O Paquistão tem atuado como canal entre Washington e Teerã, com participação de Turquia, Egito e Arábia Saudita em conversações sobre a reabertura de Ormuz. A China, maior compradora de petróleo iraniano e saudita, também pressiona por solução negociada. Ainda assim, enquanto as negociações avançam em ritmo incerto, operadores de comex precisam revisar contratos de frete, cláusulas de force majeure e prazos de entrega — e monitorar de perto as listas de restrição de bandeiras e rotas divulgadas pelas seguradoras e P&I Clubs.



