Geopolítica

Vendas de fertilizantes caíram 30% com guerra no Irã, diz órgão da ONU

Folha - Mercado·18/06/2026·623 palavras
Comércio mundial de fertilizantes caiu 30% nos primeiros quatro meses de 2026 devido à guerra no Oriente Médio e fechamento do Estreito de Hormuz, com impactos diretos nas exportações agrícolas brasileiras.

Crise de Fertilizantes: Como o Conflito no Irã Impacta o Comércio Exterior Brasileiro

A guerra no Irã iniciada em fevereiro de 2026 desencadeou uma das maiores crises de abastecimento de fertilizantes dos últimos anos. O fechamento do Estreito de Hormuz, por onde trafegam 30% do comércio global de fertilizantes, provocou queda de 30% nas vendas internacionais entre janeiro e abril de 2026. Para o Brasil, a situação é particularmente crítica: o país importa mais de 90% dos fertilizantes que consome, tornando-se altamente vulnerável a choques geopolíticos desta magnitude.

Os números são alarmantes. O volume comercializado caiu de 58 milhões para 41 milhões de toneladas no período analisado, enquanto o valor das transações recuou 18%, atingindo US$ 18 bilhões. Simultaneamente, os preços subiram 25% em média, com fertilizantes nitrogenados registrando aumentos ainda maiores. A paradoxo é inquietante: ureia está mais cara em 2026 do que em 2022, quando atingiu patamares históricos absolutos.

Esta crise supera em intensidade o impacto do conflito Rússia-Ucrânia, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A diferença crucial reside na importância do Golfo Pérsico como fornecedor global. Países como China, Rússia, Turquia e Egito implementaram restrições às exportações, agravando ainda mais a escassez. O efeito dominó é inevitável: menor disponibilidade global significa maior competição por suprimentos limitados.

As implicações para operadores de comércio exterior brasileiro são imediatas e multifacetadas. Primeiro, há pressão direta sobre as margens de lucro. A relação entre preço de fertilizantes e preço de grãos atingiu seu nível mais baixo desde 1960, conforme análise da Oxford Economics. Produtores rurais enfrentam custos de insumos desproporcionais em relação à receita esperada, reduzindo investimentos e postergando compras.

Segundo, os custos logísticos aumentaram significativamente. Congestionamento portuário é esperado até o final de 2026, com atrasos que impactam diretamente o fluxo de caixa das operações de importação. Terceiro, há pressão cambial intensificada. A maior demanda por divisas para importação de fertilizantes compete com outras necessidades de entrada de dólares na economia brasileira, potencialmente elevando a cotação do dólar.

A questão regulatória também merece atenção. As operações de importação continuam regidas pela Lei nº 9.019/1995, pelo Decreto nº 6.759/2009 (Regulamento Aduaneiro) e pela Portaria SECEX nº 23/2011. Operadores devem manter documentação rigorosa no SISCOMEX, especialmente considerando possíveis medidas governamentais de controle de preços ou incentivos à produção doméstica que podem ser implementadas em resposta à crise.

O governo brasileiro busca alternativas para reduzir dependência externa. Incentivos a produção doméstica de fertilizantes e negociações comerciais para diversificação de fornecedores estão na agenda. Contudo, a capacidade produtiva interna é limitada e não conseguirá suprir a demanda nacional em curto prazo.

Quanto aos cenários prospectivos, a FAO prevê reabertura progressiva do Estreito de Hormuz a partir de junho, com recuperação lenta e desigual. Preços permanecerão historicamente altos, embora em queda gradual. O risco de prolongamento da crise existe se cargas de energia tiverem prioridade sobre fertilizantes nos portos congestionados.

Para operadores de comex, as recomendações são claras: diversificar fornecedores fora da região do Golfo Pérsico, implementar hedging cambial para proteger-se contra volatilidade do dólar, antecipar demandas considerando atrasos logísticos, monitorar medidas governamentais e manter documentação detalhada para compliance regulatório.

A recuperação será gradual, mantendo pressão sobre custos até final de 2026. Operadores que adotarem estratégias defensivas e explorarem oportunidades de diversificação estarão melhor posicionados para atravessar este período de volatilidade.

FUP Explica

A crise de fertilizantes representa risco sistêmico para operadores de comex brasileiros porque reduz margens de lucro, aumenta custos logísticos e pressiona o câmbio simultaneamente. Importadores devem diversificar fornecedores, implementar proteção cambial e antecipar demandas para evitar rupturas de suprimento. O monitoramento regulatório é essencial, pois possíveis medidas governamentais de controle de preços ou incentivos à produção doméstica podem alterar significativamente as condições operacionais das importações até final de 2026.

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