Geopolítica

Sul Global e IA: adoção supera economias desenvolvidas

CGTN·10/07/2026·577 palavras
Pesquisa da Renmin University aponta uso e aprovação de IA maiores no Sul Global do que em economias desenvolvidas — 93% de uso relatado na África e 89% na América do Sul, ante 72% na Europa e América do Norte.

Uma pesquisa divulgada pela CGTN em parceria com o Centro Global de Pesquisa de Opinião da Universidade Renmin da China inverte uma premissa comum no debate tecnológico: o Sul Global e a IA caminham juntos com mais intensidade do que se supunha, e com índices de adoção superiores aos das economias desenvolvidas.

O estudo "How the World Views Artificial Intelligence: Adoption, Cross-Cultural Communication, and Governance" reuniu dois levantamentos internacionais. O primeiro ouviu mais de 13.300 respondentes válidos em 30 países e territórios; o segundo abrangeu mais de 12.250 pessoas em 41 países e territórios. Os resultados desafiam a narrativa de que o entusiasmo pela IA estaria concentrado no Norte Global.

Sul Global e IA

Os dados surpreedem: 93% dos respondentes africanos relataram uso de IA, seguidos por 89% na América do Sul e 88% na Ásia. Em contraste, Europa e América do Norte registraram 72% cada, e a Oceania ficou em 69%. Ou seja, as regiões historicamente associadas à vanguarda tecnológica aparecem atrás no ranking de adoção reportada.

Além disso, 68% dos respondentes internacionais consideram a IA benéfica para o cotidiano, e a ansiedade com a substituição de empregos, sentida por 56% dos participantes, é proporcionalmente menor no Sul Global do que nas economias desenvolvidas. Isso sugere que a receptividade à tecnologia não é apenas alta, mas também mais otimista nessas regiões.

Os próprios autores, no entanto, alertam para uma limitação importante: os dados refletem uso reportado, não penetração real verificada. Essa distinção é relevante para quem vai tomar decisões com base nesses números.

Entusiasmo não é o mesmo que infraestrutura

A pesquisa da Renmin University contrasta com análises anteriores, como o Network Readiness Index, que destacam que a adoção efetiva da IA depende fortemente de infraestrutura digital, e que muitas economias do Sul Global ainda apresentam baixos níveis de prontidão nesse quesito.

O economista Daron Acemoglu, do MIT, reforça esse ponto ao argumentar que inovações intensivas em capital, desenvolvidas em economias avançadas, podem não ser adequadas para países onde o trabalho é abundante e o capital é escasso , como o Brasil.

Em outras palavras, querer usar IA é diferente de ter condições estruturais para aproveitá-la plenamente. O principal obstáculo à redução da divisão digital pode não ser mais a disposição das populações, mas sim o acesso equitativo à infraestrutura, a modelos abertos e à cooperação tecnológica internacional.

O que muda para o operador de comex

Para quem atua no comércio exterior brasileiro, os dados têm implicações concretas. Com 89% de uso reportado na América do Sul, o Brasil está inserido em um bloco regional com alta receptividade à tecnologia. Empresas que incorporarem IA em processos de classificação fiscal, gestão de drawback, análise de câmbio e compliance aduaneiro tendem a ganhar vantagem competitiva em relação às que ainda operam de forma manual.

A alta adoção na África (93%) e na Ásia (88%) também sinaliza que parceiros comerciais do Sul Global estão cada vez mais digitalizados. Negociações, due diligence e rastreabilidade de cadeias de suprimento devem incorporar IA de forma crescente nesses mercados, o que exige que exportadores e importadores brasileiros acompanhem esse ritmo.

Há ainda uma dimensão regulatória a observar: 88% dos respondentes consideram as discussões sobre regras globais de IA na ONU como uma das questões mais importantes para a ordem internacional futura, e 53% apoiam o estabelecimento de normas internacionais para governança da tecnologia. Isso abre espaço para que acordos comerciais futuros incluam cláusulas sobre uso ético e regulado de IA.

FUP Explica

O dado mais relevante aqui não é o ranking de adoção em si, mas o que ele diz sobre para onde o comércio internacional está caminhando. Se parceiros comerciais do Brasil na África e na Ásia estão incorporando IA em seus processos de negociação, rastreabilidade e due diligence, empresas brasileiras que não acompanharem esse movimento podem enfrentar fricção crescente nas relações comerciais, não por questões tarifárias, mas por incompatibilidade de processos e expectativas tecnológicas.

O ponto de atenção mais imediato, porém, é a dimensão regulatória. Com 88% dos respondentes internacionais considerando as discussões sobre governança de IA na ONU como prioritárias, há uma sinalização clara de que normas internacionais sobre o uso da tecnologia estão chegando — e que elas podem se incorporar a acordos comerciais.

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