
Ásia enfrenta escassez de petróleo com dois estreitos fechados ao mesmo tempo
Bloqueio Houthi no Bab al-Mandab agrava crise energética na Ásia, com países dependentes de petróleo do Oriente Médio competindo por suprimentos reduzidos. Impacto geopolítico significativo em rotas de comércio internacional e custos de frete.
O bloqueio houthi ao tráfego saudita pelo Estreito de Bab al-Mandab agravou de forma significativa a crise energética que afeta países asiáticos, ao eliminar justamente a rota alternativa que havia sido ativada após o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã em março. Com dois dos principais chokepoints marítimos globais operando simultaneamente em condição de ruptura severa, nações como Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Tailândia, que dependem do Oriente Médio para suprir até 90% de suas importações de petróleo, enfrentam agora uma escassez sem precedente recente.
Depois que Ormuz foi fechado, a Arábia Saudita havia reorientado suas exportações para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, corredor que passou a responder por mais de 70% das exportações de crude saudita.
O bloqueio houthi atinge exatamente esse desvio, tornando inoperante a principal solução logística encontrada nos meses anteriores. A expressão "raspando o fundo do barril", usada por um analista do think tank Asia Group, resume bem o estado atual: estoques reduzidos, capacidade de reserva mínima e governos já exauridos por meses de subsídios ao combustível.
Os dados de rastreamento da empresa Kpler ilustram a velocidade do impacto: o tráfego em Bab al-Mandab recuou cerca de 34% em um único dia após o anúncio do bloqueio, com apenas 29 navios transitando pela passagem naquela data. Especialistas da mesma empresa alertam que, caso os dois estreitos sofram interrupções prolongadas e simultâneas, até 25% das rotas mundiais de abastecimento de petróleo poderão ser afetadas.
O preço do barril chegou a quase US$ 120, o maior patamar desde o início da guerra na Ucrânia em 2022, representando alta de até 30% desde o início do conflito com o Irã e o fechamento de Ormuz. Japão e Coreia do Sul já gastam bilhões em subsídios de combustível; a Coreia do Sul anunciou extensão de cortes no imposto sobre combustíveis logo após o comunicado houthi, como tentativa de conter a pressão inflacionária sobre o consumidor.
Rotas alternativas encarecem e complicam o abastecimento
Refinadores japoneses e sul-coreanos estudam desviar cargas pelo Canal de Suez em direção ao Mediterrâneo e, em seguida, contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança. Esse caminho, no entanto, apresenta um obstáculo estrutural: os maiores petroleiros do mundo, os VLCCs, não conseguem transitar pelo Canal de Suez com carga plena. Isso obriga o descarregamento parcial no Mar Vermelho e o transporte do restante pelo oleoduto SUMED até o Mediterrâneo, uma operação que adiciona custos logísticos e tempo consideráveis.
O desvio pela África mais que dobra o tempo de viagem para a maioria dos importadores asiáticos. Para completar o quadro, os prêmios de risco de guerra pagos por petroleiros dobraram em uma semana, potencialmente acrescentando centenas de milhares de dólares ao custo de cada viagem, encargos que tendem a ser repassados ao consumidor final.
FUP Explica
Com isso, o Brasil emerge como fornecedor alternativo viável. Especialistas apontam a Petrobras como opção concreta para países asiáticos que buscam diversificar suas fontes de abastecimento — o que pode abrir espaço para exportadores brasileiros de crude em um mercado que, até recentemente, era dominado pelo Oriente Médio.
A AIE e o G7 discutiram a liberação de reservas estratégicas estimadas em 1,2 bilhão de barris, mas optaram por não acionar esse mecanismo até o momento, mantendo a pressão sobre os preços.



