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Aquaviário ganha espaço e Brasil projeta R$ 1,225 trilhão para infraestrutura até 2050
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Aquaviário ganha espaço e Brasil projeta R$ 1,225 trilhão para infraestrutura até 2050

09/09/2026·715 palavras

O Brasil atravessa uma mudança na distribuição dos investimentos em infraestrutura de transportes, com maior participação do modal aquaviário e planos de longo prazo para ampliar e integrar rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos. Ao mesmo tempo, levantamentos do setor apontam que o volume aplicado ainda está abaixo das necessidades do país.

Nesse cenário, o governo federal prevê R$ 1,225 trilhão em investimentos até 2050, enquanto representantes do setor privado defendem mais capacidade e integração para reduzir custos e dar escala à logística brasileira.

Conforme apurado pela Transporte Moderno, um levantamento do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) mostra que o transporte aquaviário foi o modal que mais ganhou espaço na composição dos investimentos em infraestrutura logística entre 2017 e 2025. A participação do segmento saltou de 2% para 25% no período, enquanto as rodovias, embora continuem na liderança, passaram de 57% para 47% dos recursos. Em 2021, o aquaviário representava apenas 10% dos investimentos, ante 50% destinados ao modal rodoviário.

Esse movimento, acompanha o aumento dos aportes em hidrovias e infraestrutura portuária e indica uma carteira mais diversificada. Ainda assim, a expansão depende da conexão desses corredores com rodovias, ferrovias, portos e terminais.

Por outro lado, o volume total aplicado continua limitado: os investimentos em infraestrutura logística corresponderam a 0,42% do PIB em 2025, acima dos 0,27% registrados em 2021 e dos 0,37% de 2017, mas ainda abaixo das necessidades identificadas para o país.

A perspectiva de ampliar essa infraestrutura aparece no Plano Nacional de Logística (PNL) 2050. O planejamento do governo federal prevê R$ 1,225 trilhão em investimentos nos próximos 25 anos e busca orientar recursos públicos e privados para diferentes modais. Do montante projetado, R$ 734,4 bilhões deverão vir da iniciativa privada e R$ 490,5 bilhões do setor público, fazendo com que o capital privado represente cerca de 60% do total previsto.

Além de estabelecer uma perspectiva de investimentos, o PNL procura identificar gargalos atuais e antecipar novas demandas de transporte. O plano considera mudanças na produção e nos fluxos de cargas até 2050 e divide a infraestrutura brasileira em corredores de exportação, consumo interno e integração territorial. No total, foram estabelecidos 42 eixos de transporte, entre rodoviários, ferroviários, hidroviários, intermodais e alternativas de conexão que também podem incluir portos e aeroportos.

A necessidade de aumentar a capacidade também aparece na avaliação do setor privado. Em entrevista publicada pelo InfoMoney, Ricardo Rocha, presidente da Maersk na Costa Leste da América do Sul, afirmou que o Brasil precisa reduzir custos e ganhar escala logística.

Segundo o executivo, o Porto de Santos, maior da América Latina, possui apenas um terminal com conexão direta à rede ferroviária. Ele acrescentou que, em determinadas condições durante o inverno, portos brasileiros chegam a operar entre 90% e 95% da capacidade, deixando pouca margem para absorver variações operacionais.

A própria Maersk mantém uma estratégia de expansão no mercado brasileiro. O Brasil está entre as cinco maiores operações mundiais da companhia, que investe mais de R$ 1 bilhão por ano no país em terminais, armazéns e depósitos. Entre os projetos está um terminal próprio em Suape, com investimentos acumulados de R$ 2 bilhões.

A empresa também espera movimentar 1,15 milhão de contêineres no Brasil em 2026 e aposta em um modelo integrado que reúne transporte, armazenagem e distribuição.

Trilhos e a estimativa de R$ 2,03 trilhões da CNT

No transporte sobre trilhos, dados publicados pelo Jornal do Comércio mostram outra dimensão da necessidade de investimentos. A CNT estima em R$ 2,03 trilhões os recursos necessários para o transporte brasileiro, dos quais cerca de R$ 410 bilhões seriam destinados especificamente à infraestrutura metroferroviária.

A entidade também destaca que planejamento de longo prazo, participação privada e segurança jurídica são fatores considerados importantes para transformar os projetos previstos em capacidade efetivamente disponível.

Embora o levantamento trate principalmente do transporte urbano de passageiros, o Jornal do Comércio informa que a rede metroferroviária brasileira alcançou 1.144,8 quilômetros e 647 estações em 2025, mostrando que a ampliação da infraestrutura sobre trilhos também integra o debate nacional sobre investimentos.

Em conjunto, os indicadores mostram um país que começa a distribuir melhor os recursos entre diferentes modais, mas ainda precisa transformar planejamento e novos aportes em uma rede mais integrada, capaz de aumentar a capacidade logística e acompanhar o crescimento dos fluxos de cargas e passageiros.

FUP Explica

O que esses números revelam, no fundo, é uma tensão clássica da infraestrutura brasileira: o planejamento avança, a composição dos investimentos melhora, mas o volume total ainda fica aquém do necessário. Subir de 0,27% para 0,42% do PIB em quatro anos é progresso real, mas o próprio setor reconhece que não é suficiente.

O PNL 2050 organiza a visão de longo prazo e sinaliza para o mercado onde o governo quer chegar, o que tende a reduzir incerteza e atrair capital privado. O problema é que plano não é obra: a distância entre os R$ 1,225 trilhão projetados e a capacidade efetiva de execução depende de segurança jurídica, governança dos projetos e continuidade política ao longo de décadas.

O dado da Maersk sobre o Porto de Santos é emblemático. O maior porto da América Latina ter apenas um terminal com acesso ferroviário direto resume bem por que o custo logístico brasileiro é tão alto. Portos operando entre 90% e 95% da capacidade no inverno significam que qualquer pico de demanda, atraso climático ou problema operacional vira gargalo imediato, com impacto direto em prazo e custo para quem exporta ou importa. Mais capacidade portuária e mais conexões ferroviárias não são detalhe técnico: são o que define se o Brasil consegue ou não competir em preço no mercado internacional.

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