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Argentina mascara alta na inflação anual ao destacar apenas dado mensal
Situação econômica do principal parceiro do Mercosul; contexto relevante para negociações comerciais e competitividade regional.
A inflação na Argentina voltou a acelerar na comparação anual em junho, contrariando o tom otimista do governo de Javier Milei. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), o índice acumulado em 12 meses passou de 33,2% em maio para 33,5% em junho, o maior nível desde março do mesmo ano, enquanto o governo concentrava sua comunicação na queda do índice mensal, que recuou para 1,9%, o menor patamar em dez meses.
A divergência entre os dois indicadores tem uma explicação técnica: o índice de junho deste ano superou o registrado no mesmo mês do ano anterior, quando havia ficado em 1,6%. Isso faz com que a base de comparação puxe o acumulado para cima, mesmo com o ritmo mensal em desaceleração.
O porta-voz da presidência, Adrián Ravier, chegou a projetar que o país poderia alcançar inflação de "zero vírgula alguma coisa" a partir de agosto, mas os próprios dados do Indec não sustentam esse otimismo.
O núcleo da inflação, que exclui fatores sazonais e preços regulados, ficou em 1,6% em junho, o que o governo apresentou como sinal de tendência favorável. No acumulado do primeiro semestre, porém, a inflação atingiu 16,8%, com habitação, serviços, educação e alimentação como as categorias de maior alta.
Queda no comércio bilateral pressiona exportadores brasileiros
Esse cenário se soma a uma retração expressiva no comércio entre Brasil e Argentina. Segundo a Câmara de Comércio e Serviços da Argentina (CAC), o fluxo bilateral atingiu US$ 1,681 bilhão em janeiro de 2026, uma queda anual de 19,8% em relação aos US$ 2,097 bilhões registrados no mesmo período de 2025, marcando o quarto mês consecutivo de declínio.
As exportações argentinas ao Brasil recuaram 13,5%, para US$ 766 milhões, enquanto as importações argentinas do Brasil caíram ainda mais: 24,5%, para US$ 915 milhões. Os setores mais afetados nas compras do Brasil incluem peças automotivas, veículos e papel e cartão, todos de alta relevância para exportadores brasileiros.
O setor automotivo, que historicamente domina o comércio bilateral, permanece como o ponto mais sensível às oscilações cambiais e inflacionárias do país vizinho.
Contexto histórico e riscos para o planejamento
A Argentina registrou inflação anual de 211,4% em 2023, a maior desde 1990. A trajetória de desinflação desde então é real, mas ainda frágil. A política de abertura comercial do governo Milei levou as importações argentinas a atingirem 32% do PIB no primeiro trimestre — a maior marca em 135 anos —, o que gerou oportunidades pontuais para exportadores brasileiros, como o crescimento das vendas de carne bovina ao país vizinho.
No entanto, a combinação de inflação ainda elevada, retração do comércio bilateral e incerteza sobre a trajetória dos preços cria um ambiente de risco elevado para quem opera com a Argentina. Contratos em moeda local exigem atenção redobrada, e o monitoramento do índice acumulado em 12 meses — e não apenas do dado mensal — é o caminho mais seguro para avaliar tendências de médio prazo.
FUP Explica
O problema aqui é a diferença entre o que o governo argentino comunica e o que os dados estruturais mostram. Quando o discurso oficial foca no índice mensal enquanto o acumulado em 12 meses acelera, quem não acompanha de perto pode tomar decisões de precificação ou contrato baseadas numa percepção de estabilidade que não existe na prática.
Isso é especialmente crítico em negociações de médio prazo, onde a previsibilidade de custos e o poder de compra do parceiro argentino são variáveis centrais.
A queda de 24,5% nas importações argentinas do Brasil em janeiro de 2026 não é um número isolado, é o quarto mês seguido de recuo, e os setores mais afetados (autopeças, veículos, papel e cartão) concentram boa parte do que o Brasil vende à Argentina. Para quem atua nesses segmentos, o cenário atual exige revisão de projeções e, possivelmente, diversificação de mercados. A abertura comercial do governo Milei pode parecer uma janela de oportunidade, mas ela também traz mais concorrência de terceiros países dentro do mercado argentino, o que tende a pressionar margens mesmo quando a demanda se recupera.



