Irã arma Houthis para fechar Bab el-Mandeb e ameaça travar dois estreitos essenciais ao mesmo tempo
O Irã solicitou formalmente aos Houthis do Iêmen que estejam preparados para fechar o Estreito de Bab el-Mandeb caso os Estados Unidos ataquem usinas de energia iranianas — e o grupo confirmou que os preparativos estão concluídos. A informação, confirmada por três fontes independentes ouvidas pela Reuters, representa uma escalada crítica: com o Estreito de Ormuz operando sob bloqueio naval americano e tráfego severamente restrito, o mundo enfrenta agora a ameaça simultânea sobre dois dos pontos de estrangulamento marítimo mais estratégicos do planeta.
Estreito de Bab el-Mandeb: o que está em jogo
O Estreito de Bab el-Mandeb conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e funciona como passagem obrigatória para cargas que seguem do Golfo Pérsico ao Canal de Suez e, daí, ao Mediterrâneo e à Europa. Com aproximadamente 26 km de largura no ponto mais estreito, por ele transita cerca de 12% do comércio marítimo mundial.
O fluxo de petróleo pelo estreito chegou a 9,3 milhões de barris por dia em 2023, recuando para 4,2 milhões de barris por dia no primeiro trimestre de 2025 após os ataques Houthis iniciados em novembro de 2023.
Segundo fonte próxima ao grupo Houthi, mísseis e drones estão posicionados nas terras altas do Iêmen, com visão para Hodeidah e o Golfo de Áden, aguardando apenas a ordem para iniciar operações. A decisão de acionar o bloqueio estaria sob controle de representantes da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã já presentes no Iêmen. Um oficial Houthi sênior advertiu que o fechamento simultâneo de Bab el-Mandeb e Ormuz poderia fazer os preços do petróleo dispararem para US$ 200 o barril.
Analista sênior do Observer Research Foundation Middle East, em entrevista à CNBC, classificou o fechamento duplo como uma potencial "catástrofe" econômica. O raciocínio é direto: bloqueado o Ormuz, a alternativa natural é redirecionar o petróleo do Golfo por oleodutos internos da Arábia Saudita até o Mar Vermelho — e exportar via Bab el-Mandeb. É exatamente o que a Arábia Saudita passou a fazer. Bloquear o Bab el-Mandeb eliminaria também essa saída alternativa.
Crise simultânea nas rotas e impacto para o Brasil
No Estreito de Ormuz, a situação já é concreta. Fuzileiros navais americanos da 11ª Unidade Expedicionária realizaram a inspeção direta do navio-tanque de bandeira iraniana Wen Yao, em ação registrada em vídeo pelo próprio Exército dos EUA. Além disso, três embarcações comerciais foram redirecionadas e um navio foi desabilitado por não cumprir ordens das forças americanas.
Os EUA mantêm a posição de que o Ormuz permanece aberto para trânsito neutro, mas qualquer embarcação está sujeita a abordagem e inspeção.
A Associação Alemã de Armadores (VDR) estima que cerca de 20 navios com aproximadamente 400 marinheiros vinculados à Alemanha permanecem retidos no Golfo Pérsico. No total, o setor fala em cerca de 20.000 marinheiros retidos na região segundo outras fontes do setor. Mais de 20 navios carregados com aproximadamente um milhão de toneladas de fertilizantes também estão bloqueados.
Os vetores de impacto são múltiplos. Exportações de proteína animal, madeira e papel para países do Golfo — que somaram 158.300 contêineres no ano passado, segundo a consultoria Datamar — dependem do Estreito de Ormuz. Rotas para Europa e Mediterrâneo passam pelo Bab el-Mandeb. O desvio pelo Cabo da Boa Esperança pode adicionar entre 10 e 14 dias ao transit time, com pressão direta sobre fretes e seguros. Armadores como MSC e Hapag-Lloyd já operam modelos híbridos, usando Sharjah como porto de transbordo e serviços feeder para atender Kuwait, Dammam, Qatar, Iraque e Emirados Árabes Unidos.
Reconfiguração permanente das rotas marítimas
A crise está redesenhando o mapa portuário regional de forma que pode não ser revertida facilmente. Operadores do Golfo aproveitaram o momento para capturar participação de mercado de forma permanente, enquanto portos ocidentais da Arábia Saudita registraram perdas de volume que podem não retornar. O UKMTO, unidade militar britânica sediada em Dubai, voltou a ter papel central no monitoramento de incidentes e na orientação de embarcações comerciais.
No Mar Negro, outro vetor de instabilidade se soma ao quadro: ataques mútuos entre Ucrânia e Rússia levaram o trigo a fechar com alta de 7% na bolsa Euronext de Paris, atingindo 231,75 euros por tonelada — patamar não registrado desde fevereiro de 2025.
A Ucrânia perdeu cerca de um terço de sua capacidade de exportar cereais pelos portos do Mar Negro, segundo o principal sindicato de agricultores do país. Para importadores brasileiros de trigo, a pressão sobre os preços internacionais é mais um fator a monitorar num cenário já sobrecarregado de riscos logísticos.
FUP Explica
O que torna esse momento diferente de crises anteriores é a sobreposição de ameaças em pontos que não têm substituto fácil. Quando o Mar Vermelho ficou instável em 2023 e 2024, o desvio pelo Cabo da Boa Esperança era custoso, mas viável. Agora se o Estreito de Ormuz for de fato interrompido ou mesmo apenas ameaçado de forma mais séria, não existe um Cabo da Boa Esperança para o petróleo e o gás que passam por ali.
Cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo transita por esse corredor estreito entre o Irã e a Península Arábica, e não há rota marítima alternativa capaz de escoar esse volume, os navios precisariam contornar toda a Península Arábica por terra, o que na prática significa depender de oleodutos com capacidade muito inferior à demanda.
É essa ausência de plano B que transforma uma tensão pontual entre Irã e Estados Unidos em risco sistêmico para o preço da energia, e é justamente esse tipo de gargalo sem rota de fuga que costuma pressionar fretes e combustíveis com mais força e mais rapidez do que interrupções em outros pontos da cadeia logística global.



