Estudos mostram efeitos sobre produção agrícola, exportações e corredores logísticos; no Brasil, seca de 2023 derrubou em 53% o volume importado pelo Amazonas em um único mês
Do campo aos portos, os efeitos do El Niño podem atravessar toda a cadeia do comércio exterior. Com um novo episódio em curso em 2026, o fenômeno pode alterar safras, a disponibilidade de produtos e a navegação em corredores estratégicos. Estudos sobre eventos anteriores mostram perdas agrícolas, atrasos no transporte marítimo e interrupções no abastecimento industrial.
No Brasil, os riscos passam principalmente pelas commodities agrícolas e pela logística fluvial da Amazônia. Já no mercado internacional, podem atingir grandes regiões produtoras e passagens como o Canal do Panamá. Entretanto, os impactos variam conforme a região: enquanto algumas áreas enfrentam perdas, outras podem registrar condições favoráveis.
El Niño no comércio exterior: efeitos nas safras
Na agricultura, os efeitos não ocorrem da mesma maneira em todos os países. Um estudo publicado pela Nature Communications analisou soja, milho, arroz e trigo. A pesquisa identificou impactos negativos significativos em até 22% a 24% das áreas colhidas no mundo, mas também encontrou ganhos em outras regiões.
Na média mundial, a produtividade da soja apresentou aumento entre 2,1% e 5,4%. Já milho, arroz e trigo registraram variações entre queda de 4,3% e crescimento de 0,8%. No Brasil, o trabalho encontrou efeitos positivos para algumas áreas produtoras de soja e milho.
Essa diferença também pode reorganizar os fluxos comerciais. Se uma região exportadora perde produção, compradores podem procurar fornecedores com maior disponibilidade. Assim, as condições climáticas podem alterar os volumes negociados e a distribuição das vendas internacionais.
Por isso, os efeitos sobre o comércio dependem também da localização das perdas e dos ganhos. Uma mudança na oferta de grandes fornecedores pode deslocar compras, mesmo quando a produção mundial apresenta pouca variação.
Secas afetam a navegação e o abastecimento
Além da oferta de commodities, o fenômeno pode atingir a infraestrutura usada para movimentá-las. Um exemplo ocorreu no Canal do Panamá durante a seca de 2022 e 2023.
Estudo publicado pelo Asian Development Bank (ADB) mostrou que a menor disponibilidade de água provocou atrasos significativos nas viagens entre Ásia e Estados Unidos. Além disso, eliminou ganhos de eficiência normalmente proporcionados pelo canal. A pesquisa encontrou impactos mais elevados sobre cargas de metais e manufaturados leves.
No Brasil, um precedente semelhante apareceu na Amazônia. Durante a seca histórica de 2023, o baixo nível dos rios dificultou a chegada de grandes embarcações a Manaus. Com isso, parte do fluxo de insumos destinados à Zona Franca sofreu interrupções.
Um estudo do Banco Central do Brasil identificou apenas um navio nos principais portos de Manaus durante os 50 dias iniciados em 8 de outubro. No mesmo intervalo de 2022, foram 18 embarcações. Em outubro de 2023, o índice dessazonalizado do volume importado pelo Amazonas caiu 53% sobre o mês anterior, a maior queda da série histórica.
O impacto foi especialmente relevante porque a indústria amazonense depende de componentes importados para fabricar eletrônicos, motocicletas e outros produtos. Em 2023, cerca de 52% do valor e 91% do volume importado pelo estado entraram pelo porto de Manaus. Portanto, as restrições à navegação atingiram também o abastecimento, os custos logísticos e a produção industrial.
El Niño no Brasil: riscos para 2026 e 2027
Para 2026 e 2027, os riscos também estão no campo. A Embrapa alerta que os efeitos esperados variam dentro do próprio Brasil. Enquanto o Sul pode enfrentar chuvas acima do normal, maior umidade e mais doenças nas lavouras, Norte e Nordeste estão sujeitos a precipitações menores e mais irregulares.
Nesse cenário, culturas de verão, como soja e milho, exigem atenção ao calendário de plantio e às condições climáticas. Os possíveis reflexos alcançam tanto a disponibilidade de mercadorias para exportação quanto o planejamento do transporte.
O histórico mostra, portanto, que os efeitos do El Niño no comércio exterior seguem diferentes direções. O fenômeno pode favorecer produtores, provocar perdas em outros mercados e comprometer rotas de abastecimento. Para o Brasil, acompanhar sua evolução ajuda a antecipar possíveis mudanças na produção e na movimentação de mercadorias.