← Voltar
Economia

@2018 QuoteInspector

Dólar dispara e Bolsa despenca após eleição; o que isso significa para o comércio exterior?

26/10/2026 · 913 palavras

Volatilidade encarece operações de importadores e favorece parte dos exportadores, enquanto incertezas políticas e fiscais dificultam projeções para câmbio e juros.

A forte reação dos mercados ao resultado da eleição colocou importadores e exportadores diante de um novo cenário para custos, crédito e planejamento nesta segunda-feira (26). Enquanto investidores desmontavam posições construídas depois do primeiro turno e reavaliavam os riscos políticos e fiscais do país, o dólar chegou à região de R$ 5,60 e o Ibovespa despencou, levando a B3 a acionar o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020. Para o comércio exterior, a turbulência produz efeitos distintos: encarece operações de empresas dependentes de compras em moeda estrangeira, mas pode aumentar a competitividade de exportadores com receitas em dólar e custos concentrados em reais.

A intensidade do movimento apareceu logo pela manhã. O dólar comercial abriu em R$ 5,42, alta de 8,65% ante os R$ 4,99 do fechamento de sexta-feira, e posteriormente alcançou R$ 5,60. Na Bolsa, o Ibovespa atingiu queda de 10% e provocou a interrupção das negociações por 30 minutos. Depois da retomada, o índice chegou a recuar cerca de 16%.

A deterioração alcançou também os juros e os títulos públicos. O Tesouro Nacional cancelou leilões de papéis prefixados e indexados à inflação previstos para esta semana, enquanto investidores passaram a cobrar prêmios maiores diante das dúvidas sobre as contas públicas. Segundo a Reuters, o real chegou a perder aproximadamente 12% frente ao dólar, e o foco do mercado passou a incluir a escolha do próximo ministro da Fazenda e as sinalizações sobre disciplina fiscal.

Parte desse efeito também aparece no registro das importações. Na Duimp, a conversão dos valores em moeda estrangeira influencia o valor aduaneiro expresso em reais e, consequentemente, as bases utilizadas no cálculo dos tributos incidentes sobre a operação. Com a forte valorização do dólar nesta segunda-feira, declarações registradas sob uma taxa de câmbio mais elevada podem apresentar aumento do valor convertido em reais e dos tributos calculados sobre bases afetadas pelo câmbio. Dessa forma, o impacto da valorização da moeda norte-americana não fica restrito ao preço negociado com o fornecedor estrangeiro e pode alcançar também o desembolso tributário da importação.

A oscilação cambial também pode influenciar o momento escolhido para o registro da declaração. Em operações nas quais existe margem operacional para decidir a data, alguns importadores podem antecipar o registro da Duimp diante da expectativa de alta do câmbio ou, no movimento contrário, postergá-lo quando esperam uma taxa mais favorável. A decisão, porém, não depende somente da cotação: disponibilidade da carga, documentação, licenças, fluxo logístico, exigências aduaneiras e necessidade de liberação da mercadoria também condicionam o momento em que a declaração pode ser registrada. Em períodos de forte oscilação, a diferença entre taxas aplicáveis em dias distintos ganha peso adicional no custo final da operação.

Apesar das projeções traçadas nas primeiras horas após o resultado da eleição, a volatilidade exige cautela na interpretação dos movimentos.

Para Lucas Galdino, economista e especialista de câmbio da B&T XP, o principal elemento concreto para avaliar a reação do mercado neste momento é a insegurança política e jurídica gerada após o resultado eleitoral, especialmente diante da decisão de Flávio Bolsonaro de não reconhecer inicialmente a derrota. Na avaliação do economista, boa parte das movimentações observadas ocorre sob forte componente emocional, o que torna prematuro estabelecer uma tendência definitiva para o câmbio e os demais ativos brasileiros.

Galdino observa, porém, que o reconhecimento da vitória de Lula por países do Brics e por lideranças europeias pode contribuir para reduzir parte dessa incerteza. Segundo ele, uma eventual aceitação do resultado por Flávio Bolsonaro e o afastamento das dúvidas jurídicas em torno do processo eleitoral poderiam favorecer uma acomodação dos mercados.

O economista ressalta ainda que parte das decisões que pressionam os ativos brasileiros está sendo tomada por investidores no exterior e repercute rapidamente no país, razão pela qual recomenda cautela ao transformar os movimentos registrados nas primeiras horas após a eleição em projeções de médio e longo prazo.

As projeções disponíveis reforçam essa necessidade de cautela. O Morgan Stanley indicou que o dólar poderia testar R$ 5,50 em um primeiro movimento de reprecificação. Em um cenário mais adverso, condicionado à ausência de cortes de gastos e à piora da percepção fiscal, a instituição considera possível uma aproximação de R$ 6, acompanhada de juros interbancários para janeiro de 2029 em torno de 16,5%. Trata-se, entretanto, de um cenário de estresse, e não de uma previsão consolidada para o câmbio.

Para empresas de comércio exterior, o risco também passa pelo crédito. Caso os juros permaneçam elevados, financiamentos de estoques, produção e capital de giro podem ficar mais caros justamente quando importadores precisam de mais reais para cumprir compromissos em dólar. Nesse ambiente, proteção cambial, revisão de margens, negociação de prazos e compatibilização entre receitas e despesas em moeda estrangeira ganham importância.

A duração desse choque dependerá, sobretudo, dos sinais enviados pela política econômica e do comportamento do ambiente político nas próximas semanas.

Importadores precisarão avaliar custos antes de assumir novas obrigações cambiais sem proteção e considerar os efeitos da taxa de câmbio no momento do registro das operações, enquanto exportadores terão de calcular quanto da vantagem proporcionada pelo dólar mais alto permanece depois dos custos também dolarizados. Para ambos, acompanhar câmbio, juros e política fiscal será decisivo, mas a ressalva feita por Galdino permanece central: movimentos registrados em um ambiente de forte tensão e incerteza não devem ser tratados, isoladamente, como indicação definitiva do comportamento do mercado nos próximos meses.