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Terremoto provoca avalanche e inundação na fronteira entre China e Nepal
Um terremoto de magnitude 4,4 registrado na manhã desta quarta-feira (26), na região do Himalaia, na fronteira entre o Nepal e o Tibete chinês, é apontado pelas autoridades como o gatilho de uma sequência de eventos que provocou uma avalanche de gelo, neve e rochas, bloqueou cursos d'água e desencadeou uma inundação repentina. Pelo menos 98 pessoas morreram nos dois lados da fronteira e centenas estão desaparecidas. O desastre atingiu vilas, estradas, pontes, usinas hidrelétricas e o porto terrestre de Gyirong. Equipes de resgate atuam na região sob o risco de novos tremores, desprendimentos de geleiras e uma segunda onda de inundação.
No Nepal, 95 corpos haviam sido recuperados no balanço mais recente, enquanto 484 viajantes, entre estrangeiros e nepaleses, eram considerados desaparecidos. Do lado chinês, as autoridades confirmaram três mortes e 265 desaparecidos no condado de Gyirong, no Tibete.
Como o terremoto no Himalaia desencadeou a catástrofe
A principal hipótese considerada pelas autoridades é que o tremor tenha provocado o colapso de parte de uma geleira ou de uma encosta glacial sobre o rio Lhende Khola. A massa de gelo e rochas teria bloqueado temporariamente o curso da água e formado uma barragem natural. Com o aumento da pressão, o bloqueio teria cedido ou transbordado, liberando um grande volume de água, lama, neve e detritos em direção aos vales.
Imagens de satélite analisadas pelas autoridades nepalesas indicam um deslizamento de gelo e rochas a cerca de 20 quilômetros a nordeste da passagem fronteiriça de Rasuwagadhi.
O geólogo Rualdo Menegat, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirmou, em entrevista à CNN Brasil, que o material que desceu pelas montanhas não é composto apenas por água e lama. Segundo ele, a enxurrada também transporta neve e gelo desprendidos das geleiras do Himalaia, além de rochas e sedimentos. A combinação aumenta a densidade e o poder destrutivo do fluxo ao atravessar os vales estreitos da cordilheira.
Menegat também alerta que o terremoto deve ser entendido como um evento ainda em curso. Segundo o geólogo, a falha geológica pode continuar deslizando lentamente e produzir novos pulsos sísmicos, incluindo um segundo ou até um terceiro movimento. Esses tremores secundários podem desestabilizar outras porções de neve, gelo e rochas nas encostas, levando mais material aos rios e intensificando a cadeia de desastres. Para o professor, a combinação entre terremotos e relevo montanhoso está entre os cenários naturais mais perigosos e mortíferos do planeta.
Risco de segunda inundação e operações de resgate
O risco de novos episódios permanece elevado porque parte dos detritos ainda represa o Lhende Khola. As autoridades alertaram para a possibilidade de uma segunda inundação e iniciaram a retirada preventiva de moradores de áreas baixas e próximas aos rios. A temporada de monções agrava a situação, uma vez que dias de chuva elevaram o volume de água nos rios e sistemas glaciais da região.
A força da enxurrada destruiu casas, rodovias, pontes e projetos de geração de energia no Nepal. Algumas áreas ficaram sem eletricidade, e as condições adversas também dificultam o pouso de helicópteros utilizados nas operações de resgate.
No Tibete, o desastre atingiu diretamente o condado de Gyirong. O deslizamento interrompeu estradas, comunicações e o fornecimento de energia no porto de Gyirong, importante conexão terrestre entre o Tibete e o Nepal. Pequim mobilizou centenas de socorristas, drones e recursos militares para avaliar os danos e alcançar áreas isoladas.
O presidente chinês, Xi Jinping, determinou prioridade às operações de busca, à retirada de moradores de áreas de risco e ao monitoramento de possíveis "desastres secundários".
Os efeitos do desastre também chegaram ao norte da Índia, onde autoridades emitiram alertas para enchentes diante da elevação do nível de rios que descem do Himalaia. Milhares de moradores começaram a ser retirados de áreas consideradas vulneráveis.
Diante da possibilidade de novos movimentos sísmicos apontada por Menegat, dos bloqueios que permanecem nos rios e do material glacial acumulado nas encostas, a dimensão final do desastre ainda não pode ser determinada.
Outros terremotos em 2026
O desastre no Himalaia ocorre em um ano marcado por uma série de terremotos de grande magnitude em diferentes regiões do mundo. Até agosto, 11 eventos de magnitude 7 ou superior haviam sido registrados em 2026, com ocorrências na Malásia, Tonga, Vanuatu, Indonésia, Japão, Filipinas, Venezuela, México e Colômbia.
Entre os mais fortes estão o terremoto de magnitude 7,8 registrado nas Filipinas, em junho, e o de magnitude 7,7 ocorrido na ilha de Flores, na Indonésia, em agosto. A Venezuela registrou dois terremotos de grande intensidade no mesmo dia, com magnitudes 7,2 e 7,5.
A concentração de terremotos fortes, no entanto, não significa que os episódios estejam relacionados entre si nem comprova um aumento excepcional da atividade sísmica mundial, uma vez que cada evento depende das condições tectônicas específicas da região onde ocorre.
Especialistas ressaltam ainda que a magnitude, isoladamente, não determina o potencial destrutivo de um terremoto. Fatores como profundidade, localização do epicentro, relevo, densidade populacional e ocorrência de fenômenos secundários, entre eles deslizamentos, avalanches e inundações, podem fazer com que tremores de menor magnitude provoquem desastres de grandes proporções, como o registrado na região montanhosa entre o Nepal e o Tibete.
FUP Explica
O que chama atenção neste desastre é a combinação de fatores que transforma um tremor de magnitude relativamente baixa, 4,4, num evento com potencial de causar centenas de mortes. A explicação está no relevo: no Himalaia, um tremor não precisa ser forte para desestabilizar geleiras e encostas carregadas de neve, gelo e rocha solta, e o material que desce pelos vales estreitos ganha densidade e velocidade suficientes para destruir infraestrutura inteira. A temporada de monções, com rios e sistemas glaciais em nível elevado, amplifica esse efeito.
Do ponto de vista humanitário, a situação ainda é aberta: com centenas de desaparecidos nos dois lados da fronteira, parte dos detritos ainda represando o rio e a possibilidade de novos pulsos sísmicos apontada pelo geólogo Menegat, o número de vítimas pode crescer. A dificuldade de acesso, com estradas e pontes destruídas e condições que impedem o pouso de helicópteros, torna as operações de resgate lentas e arriscadas.
No plano político, o desastre coloca China e Nepal diante de uma crise humanitária transfronteiriça que exige coordenação entre os dois governos. A mobilização de Xi Jinping, com envio de militares e drones, sinaliza que Pequim trata o episódio com urgência, em parte porque o porto de Gyirong, afetado diretamente, é uma conexão terrestre relevante entre os dois países. Os alertas emitidos no norte da Índia mostram que os efeitos se espalham além da zona de impacto imediato, o que pode exigir articulação regional mais ampla nas próximas semanas.




