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Inflação volta à meta, mas El Niño ameaça trajetória de queda da inflação
O IPCA voltou à meta do Banco Central em julho de 2026, com a inflação acumulada em 12 meses chegando a 4,44%, abaixo do teto de 4,5% pela primeira vez desde abril, conforme informou o InfoMoney. O resultado traz alívio após meses de pressão inflacionária, mas economistas apontam que incertezas climáticas e externas tornam o cenário ainda complexo para as próximas decisões de política monetária.
No mês, o índice avançou 0,07%, o menor percentual para julho em quatro anos, mas ficou acima das projeções de analistas, que esperavam alta de 0,03%. A diferença refletiu serviços mais resistentes à desinflação e uma queda menor que o esperado nos preços de alimentos.
O grupo Alimentação e bebidas recuou 0,67% em julho, a maior queda desde julho de 2024, com a alimentação no domicílio registrando retração de 1,14%. Tomate (-29%), batata-inglesa (-19,6%) e cenoura (-14,4%) lideraram as quedas dentro do grupo. O café, que acumulou alta de 82,24% até maio de 2025, recuou 2,45% no mês e acumula queda de 17,2% em 12 meses, a maior desde o Plano Real, embora ainda não tenha devolvido toda a valorização anterior.
A energia elétrica funcionou como contrapeso. Segundo cálculos do gerente do IPCA Fernando Gonçalves, sem a alimentação o índice teria subido 0,27%; sem a energia, teria havido deflação de 0,07%.
Na reunião do Copom realizada na semana anterior ao resultado de julho, o Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano. A ata divulgada no mesmo dia evitou comprometer o BC com uma trajetória clara para os juros, deixando aberta a possibilidade de novos ajustes conforme os dados evoluam.
Economistas passaram a colocar no radar a possibilidade de novo corte de 0,25 ponto percentual em setembro, sem consenso. Leonardo Costa, economista do ASA, avalia que a principal mensagem da ata foi a dependência de dados, com o BC reconhecendo risco crescente de novo corte em setembro caso a moderação da atividade ganhe intensidade. Costa mantém projeção da Selic em 14% até o fim do ano.
Gabriel Pestana, economista da Genial Investimentos, passou a esperar redução em setembro após a ata, que sinalizou que a política monetária não deve reagir a choques vindos do lado da oferta, mudança em relação à comunicação anterior. De novembro em diante, porém, Pestana vê cenário mais incerto, com possibilidade de o BC interromper os cortes naquele mês.
Felipe Salles, economista-chefe do C6, descreveu o cenário como "muito incerto e muito complexo" e avaliou que o BC adotou postura dura enquanto tenta calibrar o grau ótimo de aperto. Salles projeta manutenção da Selic em 14%, mas afirma que um corte de 0,25% está "super na mesa".
El Niño e ambiente externo no radar do BC
Apesar do alívio em julho, o Banco Central mantém preocupação com a inflação puxada pelo consumo interno aquecido. A projeção do BC para o IPCA no primeiro trimestre de 2028 segue em 3,2%, perto da meta, o que sustentaria uma postura mais flexível à frente.
O fenômeno climático El Niño emerge como fator adicional de atenção. Se o fenômeno se consolidar em 2026, o cenário mais provável para o Brasil inclui mais chuva e risco de enchentes no Sul, calor e seca na Amazônia e em partes do Nordeste, além de aumento dos eventos climáticos extremos em várias regiões, conforme análise do portal O Eco. Pestana avalia que a sazonalidade de serviços e alimentos pode ser agravada pelo fenômeno.
O ambiente externo também permanece incerto, com potencial para reduzir o fluxo de recursos para economias emergentes como o Brasil.
Eventual piora do câmbio com a proximidade de eleições e risco de novos conflitos pressionando juros nas economias desenvolvidas são fatores que podem pesar nas próximas decisões do BC. Até a reunião de setembro, a prévia da inflação de agosto será acompanhada de perto para indicar se a surpresa dos serviços em julho foi pontual ou sinaliza desaceleração mais lenta dos componentes mais inerciais do índice.
FUP Explica
O retorno do IPCA à meta é politicamente relevante porque alivia a pressão sobre o Banco Central e sobre o governo, que conviveu por meses com a inflação acima do teto e com críticas à condução da política monetária. Mas o alívio é frágil: a surpresa nos serviços em julho mostra que a desinflação não está ocorrendo de forma homogênea, e os componentes mais inerciais do índice, como serviços, tendem a responder mais devagar ao aperto monetário.
A indefinição sobre os próximos passos da Selic cria um ambiente de incerteza para quem toma decisão de investimento ou de crédito. Com o BC sinalizando dependência de dados e economistas divididos entre manutenção e novo corte em setembro, o mercado vai operar sem âncora clara por pelo menos mais algumas semanas. O El Niño adiciona uma camada de risco que o BC não controla: se o fenômeno pressionar alimentos e energia no segundo semestre, pode reverter parte do alívio que julho trouxe, complicando a trajetória de cortes.
No plano externo, o risco de piora do câmbio com eleições à vista e juros elevados nas economias desenvolvidas tende a encarecer o custo de financiamento e reduzir o apetite por ativos de países emergentes. Isso limita a margem de manobra do BC para afrouxar a política monetária mesmo que os dados domésticos melhorem, porque um câmbio mais depreciado se traduz em pressão de preços importados e pode reabrir a discussão sobre a meta.





