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Brasil reduz cobertura nativa de 79% para 65% e aumenta a vulnerabilidade ao El Niño
Economia

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Brasil reduz cobertura nativa de 79% para 65% e aumenta a vulnerabilidade ao El Niño

12/08/2026·647 palavras
Dados revelam vulnerabilidade do Brasil aos efeitos de secas e enchentes causadas por El Niño, com implicações para o agronegócio exportador.

A perda de vegetação nativa em 41 anos deixou o Brasil mais vulnerável aos efeitos do El Niño, fenômeno que deve impactar o país no segundo semestre de 2026. Os dados foram divulgados pelo MapBiomas nesta quarta-feira (12) e mostram que a cobertura nativa recuou de 79% para 65% do território nacional entre 1985 e 2025.

Para chegar a essa conclusão, pesquisadores do MapBiomas cruzaram o histórico de precipitações durante três eventos fortes de El Niño, os de 1997/98, 2015/16 e 2023/24, com dados de uso da terra nos meses de setembro a novembro, período crítico do fenômeno no Brasil. O resultado mostra que a redução de chuvas vem se agravando em praticamente todo o país, com exceção do Pampa e da porção sul da Mata Atlântica.

A Amazônia registrou o maior déficit de precipitação entre todos os biomas nos três eventos analisados, conforme apurou o InfoMoney. No El Niño mais recente, de 2023/24, a queda de chuvas foi mais acentuada justamente nas áreas de agropecuária do bioma. No Cerrado e na parte norte da Mata Atlântica, a seca se intensifica a cada novo ciclo do fenômeno, com impacto mais forte nas áreas de vegetação nativa.

O Pantanal foi o bioma mais atingido pelo último evento em termos de precipitação: 2024 foi o ano mais seco de toda a série histórica mapeada. No Sul do Brasil, o cenário se inverte, com excesso recorrente de chuvas entre setembro e novembro durante os eventos de El Niño. No Pampa, esse excesso foi mais frequente nas áreas agropecuárias do que nas de vegetação nativa em dois dos eventos analisados. Segundo Eduardo Vélez, membro da equipe do Pampa no MapBiomas, o excesso de chuvas nessas áreas provoca perdas nas lavouras e erosão dos solos, problema agravado pela redução da vegetação nativa, que atua na proteção do solo e na infiltração da água.

Um terço do território brasileiro, 33%, sofreu ao menos uma mudança de cobertura e uso da terra entre 1985 e 2025, enquanto 67% permaneceram estáveis. Amazônia e Cerrado concentraram as maiores perdas absolutas de vegetação nativa no período, com reduções de 54,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente. Em termos proporcionais, Cerrado e Pampa lideram as perdas dentro de cada bioma, com recuos de 34% e 32%. Em 2025, Amazônia e Pantanal eram os biomas com maior proporção de vegetação nativa, ambos com mais de 80% do território coberto por essas formações.

No plano estadual, 25 estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa em seus territórios ao longo dos 41 anos. O Rio de Janeiro foi a única exceção, com aumento de 1%.

A agropecuária passou de 150,2 milhões de hectares em 1985, equivalente a 18% do território, para 273,3 milhões de hectares em 2025, chegando a 32% do país. As pastagens respondem por mais da metade dessa área, com 165,6 milhões de hectares em 2025, após incorporar 61,6 milhões de hectares desde 1985. A agricultura saltou de 18,6 milhões para 66,5 milhões de hectares no mesmo período, com a soja liderando a expansão: a cultura passou de 4,5 milhões para 44,2 milhões de hectares e responde por 66,5% de toda a área agrícola do país em 2025.

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El Niño em 2026

O El Niño é um fenômeno climático natural, mas seus impactos são amplificados pelo aquecimento global. Em 2026, o fenômeno pode provocar alterações no regime de chuvas, com secas em algumas regiões e enchentes em outras, afetando a agricultura, o abastecimento de água e a geração hidrelétrica. Seus efeitos costumam diminuir quando o fenômeno se encerra, mas a destruição ambiental associada ao avanço sobre áreas naturais, com desmatamento, queimadas e degradação de ecossistemas, produz consequências que podem perdurar por décadas.

O agronegócio representou 25,13% do PIB do país em 2025, segundo cálculo do CEPEA/USP divulgado em abril de 2026, e responde por cerca de 50,2% das exportações totais brasileiras, conforme ((o))eco.

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O dado central aqui é a combinação de dois processos que se reforçam: a vegetação nativa recua, e o El Niño fica mais destrutivo justamente onde esse recuo foi maior. Isso não é coincidência, é causalidade. Menos vegetação significa menos infiltração de água no solo, menos regulação do ciclo hídrico local e mais exposição às variações extremas de precipitação, tanto para cima quanto para baixo.

O peso econômico disso é considerável. O agronegócio responde por um quarto do PIB e por mais da metade das exportações brasileiras, e é exatamente o setor que mais expandiu sobre a vegetação nativa nos últimos 41 anos. Há uma contradição estrutural aí: a expansão que sustentou o crescimento da produção também reduziu a resiliência climática do próprio sistema produtivo. Secas mais severas na Amazônia e no Cerrado e enchentes mais intensas no Sul atingem diretamente lavouras, pastagens e infraestrutura logística, com reflexo em safras, preços e capacidade de entrega ao mercado externo.

No curto prazo, o segundo semestre de 2026 já é o período de atenção, com o El Niño previsto para se manifestar justamente na janela de setembro a novembro.

No médio prazo, o padrão identificado pelos pesquisadores sugere que cada novo evento tende a ser mais intenso do que o anterior nas regiões que perderam mais cobertura nativa, o que coloca pressão crescente sobre qualquer política de gestão de risco agrícola e de segurança hídrica no país.

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