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Ataques tiram 17% da capacidade de GNL do Catar e ameaçam mercado por até cinco anos
Geopolítica

Ataques tiram 17% da capacidade de GNL do Catar e ameaçam mercado por até cinco anos

11/08/2026·585 palavras
Conflito geopolítico no Estreito de Ormuz impacta oferta e preços de gás natural liquefeito no mercado global, afetando cadeias de suprimento e custos de energia para importadores brasileiros.

O Estreito de Ormuz, por onde passa 20% das exportações mundiais de petróleo, tornou-se o centro de uma disputa que ameaça redesenhar o mercado internacional de GNL no Estreito de Ormuz. Ataques iranianos atingiram duas unidades de liquefação do complexo de Ras Laffan, no Catar, e a QatarEnergy estima que os reparos podem levar de três a cinco anos. A redução representa cerca de 17% da capacidade total de exportação catariana.

O Catar é o segundo maior exportador mundial de GNL, e aproximadamente 90% de sua produção escoa pelo Estreito de Ormuz, conforme levantamento do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil. O país planejava quase dobrar sua capacidade de exportação nos próximos anos, o que torna o dano às instalações de Ras Laffan ainda mais significativo para os planos de expansão do setor.

A escalada entre Estados Unidos e Irã se intensificou após o ataque do Hamas contra Israel em outubro de 2023, quando o Irã ampliou a atuação de sua rede de proxies em Gaza, Líbano, Iraque, Iêmen e Mar Vermelho. Essa pressão simultânea sobre Israel e interesses americanos na região criou o ambiente que culminou nos ataques às instalações cataríanas.

Em condições normais, cerca de 20% das necessidades globais de GNL são transportadas pelo Estreito de Ormuz, dos quais 80% a 90% fluem para o mercado asiático. A situação atual praticamente cortou esse suprimento, com efeitos imediatos nos preços.

Na Europa, os preços do gás natural subiram 40% em março de 2026, segundo o Funds Society, reflexo da forte dependência da região das remessas de GNL do Oriente Médio. O Henry Hub spot price registrou alta de 65% desde o final de fevereiro, enquanto o TTF, benchmark europeu negociado na Holanda, disparou cerca de 60%.

A competição no mercado de GNL spot atingiu um nível em que qualquer contrato físico lançado é imediatamente absorvido por compradores, segundo análise da Bloomberg Industry Research. Mesmo que o conflito geopolítico se encerrasse no curto prazo e o estreito fosse reaberto, a competição pelos próximos três a seis meses permaneceria intensa porque os estoques foram consumidos durante o período de crise.

O tamanho do mercado de GNL em 2026 é estimado em 553,16 MTPA, crescendo a partir de 511 MTPA em 2025, com projeções para 2031 indicando 822,68 MTPA a um CAGR de 8,25% no período, conforme dados da Mordor Intelligence.

Catar busca alternativas e reputação em risco

A prioridade imediata de Doha é restaurar a capacidade não afetada e acelerar a expansão do projeto North Field East, segundo o CSIS. O governo catariano também precisa garantir condições seguras para a passagem diária de navios pelo estreito antes de colocar toda a infraestrutura em operação.

As declarações de força maior e os atrasos nas entregas ameaçam relações comerciais construídas ao longo de décadas, especialmente com compradores asiáticos que dependem de contratos de longo prazo, conforme apurou o Exame. Nos bastidores, Doha avalia uma possível negociação bilateral com Teerã que permitisse continuidade parcial das exportações mesmo sem reabertura completa da hidrovia, embora essa alternativa possa gerar atritos com Washington e parceiros ocidentais.

O CSIS considera ainda o surgimento de dois corredores marítimos concorrentes no estreito: um controlado ou autorizado pelo Irã, atendendo países alinhados a Teerã, e outro com proteção naval liderada pelos Estados Unidos e seus aliados. Enquanto isso, Estados Unidos e Canadá avançam na expansão de sua capacidade de exportação de GNL, com novos projetos em construção que devem adicionar mais de 120 milhões de toneladas por ano à oferta americana.

FUP Explica

O que está em jogo aqui vai além de uma crise de abastecimento pontual. A combinação de dano físico às instalações do Catar, com prazo de reparo estimado em até cinco anos, e o bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz cria uma escassez estrutural no mercado de GNL que não se resolve com cessar-fogo. Os estoques foram consumidos durante a crise, e o mercado spot já opera sem folga, o que significa que qualquer comprador sem contrato de longo prazo vai enfrentar preços elevados por um período prolongado, independentemente do desfecho diplomático imediato.

Para o Brasil, o efeito mais direto é no custo de energia. O país importa GNL para complementar a geração termelétrica em períodos de baixa nos reservatórios, e preços 60% a 65% acima do patamar anterior encarecem essa complementação. Isso tende a pressionar as tarifas de energia elétrica e os custos industriais, especialmente em setores que dependem de gás como insumo, como petroquímica e fertilizantes. O repasse ao consumidor final não é imediato, mas é provável se a crise se prolongar.

No plano geopolítico, a crise acelera uma reconfiguração que já estava em curso: a ascensão dos Estados Unidos como principal exportador de GNL e o enfraquecimento da posição catariana como fornecedor de referência para a Ásia. Para o Catar, o risco mais sério não é só a perda de receita no curto prazo, mas o dano à reputação de fornecedor confiável, que pode levar compradores asiáticos a diversificar contratos de longo prazo em direção ao GNL americano ou australiano. Essa mudança, uma vez consolidada, é difícil de reverter.

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