Investidores questionam o retorno dos gastos bilionários com inteligência artificial, enquanto empresas chinesas acumulam fortes correções na bolsa
A queda de 12,6% das ações da Alphabet levou os investidores a reavaliar o custo da corrida pela inteligência artificial em Wall Street na quinta-feira (29). Após a controladora do Google apresentar receita abaixo das expectativas e acelerar o consumo de caixa com IA, as principais bolsas americanas fecharam em baixa. O movimento reacendeu dúvidas sobre a sustentabilidade desses investimentos, em meio a uma correção que já atingiu desenvolvedoras chinesas.
Segundo a Reuters, o Nasdaq perdeu 1,37%, o S&P 500 recuou 0,30% e o Dow Jones caiu 0,25%. As ações de semicondutores também cederam 1,4%, interrompendo quatro sessões de alta. A reação refletiu a preocupação com a capacidade das empresas de financiar seus projetos e transformar os gastos em receitas que justifiquem as expectativas do mercado.
Na China, a trajetória de algumas companhias levou o Financial Times, em análise publicada em 28 de outubro na coluna Unhedged, a defender que a bolha da IA já estourou naquele mercado. A avaliação se apoia na rápida reversão da euforia com empresas que desenvolvem modelos avançados, mas não representa uma constatação de colapso de toda a indústria.
Da euforia à correção nas empresas chinesas
A MiniMax exemplifica essa mudança. Depois de abrir capital em Hong Kong em janeiro e subir 33% no primeiro mês, a empresa atingiu seu pico em março. Na data da análise, porém, suas ações estavam 50% abaixo do preço da oferta inicial.
A Z.ai apresentou oscilações ainda mais intensas. Em junho, chegou a negociar 1.732% acima do preço de abertura, antes de perder 63% do valor em menos de um mês. Apesar do tombo, mantinha valorização de 318% no ano, diferença importante para dimensionar a correção sem confundi-la com perda acumulada em 2026.
Parte do desafio está na forma de monetizar a tecnologia. Enquanto laboratórios americanos priorizam a cobrança pelo acesso aos modelos, concorrentes chineses também disponibilizam os pesos dos sistemas e cobram pelo processamento. Essa abordagem intensifica a competição por preços e coloca em discussão a capacidade das receitas de sustentar novos investimentos.
A pressão alcança um mercado que já enfrenta dificuldades mais abrangentes. Conforme os números apresentados na análise, o Hang Seng Tech e o MSCI China acumulavam perdas de 30% no ano. Entretanto, o desempenho desses índices também envolve fatores econômicos e financeiros que ultrapassam a inteligência artificial.
Louis-Vincent Gave, da Gavekal Research, aponta como hipótese o deslocamento de recursos das bolsas chinesas para fabricantes de semicondutores na Coreia do Sul e em Taiwan. Trata-se de uma interpretação sobre os fluxos de investimento, e não de uma causa isolada comprovada para as quedas.
Wall Street distingue riscos dentro do mercado
Nos Estados Unidos, o pregão mostrou que a desconfiança não atingiu todas as ações da mesma maneira. Enquanto os principais índices recuaram, o Russell 2000, que reúne empresas menores, avançou 1%.
Para Ross Mayfield, estrategista da Baird, essa diferença indica que os sinais de fragilidade na aposta em IA ainda não significavam problemas em todos os segmentos. A avaliação ajuda a distinguir uma correção concentrada de uma deterioração generalizada da bolsa.
O cenário econômico também entrou na conta. O Federal Reserve manteve os juros na quarta-feira (28), e a leitura inicial do PIB americano indicou crescimento de 3,4% no terceiro trimestre, acima das expectativas. Com pressões inflacionárias persistentes, os investidores passaram a ponderar os resultados das empresas ao lado das condições de financiamento dos projetos.
Checagem e ajustes editoriais
A checagem corroborou a publicação e a tese da análise sobre a China, além dos principais dados do pregão americano. Os números específicos das empresas chinesas permanecem atribuídos ao levantamento enviado, sem confirmação independente em documentos das companhias.