Levantamento da SLTECH aponta concentração em sites maliciosos e phishing; mudanças no monitoramento impedem atribuir toda a alta ao avanço da atividade criminosa
As ameaças cibernéticas bloqueadas nas empresas de comércio exterior monitoradas pela SLTECH passaram de 9.629 em julho para 31.860 em setembro de 2026, um crescimento de 231%. Os registros, coletados por uma solução de segurança em dispositivos, mostram a exposição dessas operações a sites maliciosos e phishing, mas exigem uma ressalva: houve mudanças no volume e no escopo do monitoramento durante o trimestre.
Segundo Tássio Monteiro, analista de marketing na SLTECH, essas alterações influenciam as contagens absolutas. Por isso, o percentual não pode ser interpretado integralmente como aumento da atividade criminosa. Para separar os efeitos da mudança na base de uma possível maior exposição às ameaças, seria necessário comparar os mesmos dispositivos, em períodos equivalentes e com critérios de classificação estáveis.
Ainda assim, os dados revelam uma concentração relevante em riscos associados à interação dos usuários. Cerca de 90% das ameaças bloqueadas no segmento estavam relacionadas à navegação em sites maliciosos e ao phishing, modalidade que utiliza mensagens ou páginas fraudulentas para enganar as vítimas. Nesse último caso, as empresas de comércio exterior responderam por 46,6% dos bloqueios de toda a carteira analisada.
Para Monteiro, essa exposição precisa ser considerada na gestão das operações. “No comércio exterior, proteção de dados e continuidade operacional são dimensões do mesmo risco”, afirma. A atividade depende da disponibilidade e da integridade de documentos comerciais, financeiros e aduaneiros, além de credenciais, comunicações e informações compartilhadas com clientes, fornecedores e outros participantes da cadeia.
Se essas informações forem alteradas, expostas ou ficarem indisponíveis, os efeitos podem atingir pagamentos, faturamento, liberação de mercadorias e atendimento. O analista explica que o comprometimento de e-mails, documentos ou sistemas pode atrasar decisões e etapas documentais, com possíveis custos de armazenagem e demurrage, cobrança pela utilização do contêiner além do prazo acordado. Esses efeitos, porém, não são consequência automática de toda ameaça bloqueada.
Os indicadores por equipamento também mostram uma exposição superior à média da carteira. No comércio exterior, foram registradas 174,2 detecções mensais por dispositivo, resultado 41,8% maior que o geral. As ameaças bloqueadas chegaram a 54,3 por equipamento ao mês, patamar 23,7% superior, enquanto 26,4% dos dispositivos do segmento tiveram alguma detecção de malware bloqueada no trimestre.
Ao longo do período, os bloqueios passaram de 9.629 em julho para 12.151 em agosto e 31.860 em setembro. O último mês concentrou mais da metade das 53.640 ameaças bloqueadas no segmento, que também acumulou 171.953 detecções. O comércio exterior respondeu por 12% das detecções e 10,4% dos bloqueios da carteira, participações superiores ao peso de seus equipamentos na base.
Embora a automação e a inteligência artificial possam acelerar a produção de campanhas maliciosas, Monteiro ressalta que a telemetria analisada não permite afirmar que as ameaças registradas em setembro tenham sido produzidas com IA. A tecnologia, portanto, aparece como contexto da evolução dos riscos, sem relação causal demonstrada com o crescimento observado.
Para reduzir a exposição, o analista recomenda combinar treinamento contínuo, proteção de e-mails e dispositivos, autenticação multifator, controle de acessos e atualização de sistemas. Backups protegidos, testes de restauração e planos integrados de continuidade e resposta a incidentes também devem fazer parte da gestão. “Nenhum controle isolado resolve o problema”, afirma. “A maturidade está em combinar pessoas, processos e tecnologia, medir a cobertura e testar se a organização realmente consegue detectar, conter e recuperar seus serviços críticos.”
O levantamento abrangeu 110 clientes ativos de diferentes segmentos e mais de 4 mil dispositivos no país, entre 1º de julho e 30 de setembro. Os dados foram agregados e anonimizados. No conjunto da carteira, houve aproximadamente 1,44 milhão de detecções e 514,6 mil ameaças bloqueadas. Os resultados não representam todo o mercado brasileiro, e os registros não equivalem necessariamente a incidentes ou invasões bem-sucedidas.